Crônicas
Crônicas
Na seção Crônicas, a Escrita Selvagem reúne textos que capturam o cotidiano com lirismo e crítica. São narrativas curtas, poéticas e reflexivas, que transformam pequenos gestos, memórias e olhares em literatura. Um espaço para sentir o tempo e ouvir a voz do instante.
Sou um Portão
Sou um portão.O receptáculo das memórias daqueles que cruzaram por mim.Das classes sociais que se misturaram — ou se separaram — diante de mim.Dos amores e dores que me acompanharam por décadas. Uma das filhas já passou suspirando de amores, sonhando em casar nos meus domínios, naquela igreja simpática a poucos passos daqui.Era como se convidasse meus velhos amigos a fazerem o sinal da cruz. Antes dela, vieram os zeladores — uma família que se estende como herança e escravidão.Um teto para morar de graça, desde que zelassem pelas minhas entranhas.Foram muitas famílias: umas ficaram pouco; outras batiam palmas coladas a mim, pedindo emprego.Mas os senhores avaliavam pela cor da…
Sobre Saber Fazer e Criar Cicatrizes
Um passo para frente e um passo para trás. Essa foi a definição que me deram quando entrava no meu ano 2 na numerologia. Para aqueles que acreditam ou não, os números sempre me foram muito bem correspondentes às expectativas e eventos na minha vida. Os setênios me perseguiam em suas incessantes especificações de como o próximo ciclo poderia seguir, errando um ou três anos em seus inícios e términos, por isso os acompanhava e buscava prestar atenção aos seus remendos na existência. Falar de números é falar de datas e acontecimentos — para alguém definido por psicólogos e psicanalistas como um excelente sobrevivente — que não existem, pois os…
Os Livros que se Vendem Sozinhos
Era uma vez uma carta elegante. Um e-mail que começava com “parabéns” e terminava com um vídeo no YouTube. O tipo de e-mail que, se fosse um prato, viria decorado com flores comestíveis e um fio de azeite trufado — para disfarçar o gosto do que realmente estava sendo servido. Diziam ter lido o meu livro. Diziam que a obra possuía “qualidade, criatividade e os valores que buscamos”. Uma ode ao entusiasmo genérico. Mas em nenhum momento disseram o que, exatamente, tinham lido. Nenhuma frase citada, nenhum trecho comentado. Apenas uma aprovação automática, embalada com o selo: confiança na sua obra (desde que ela se venda sozinha, claro). A proposta…
O Daruma
Era uma tarde nublada quando me deparei com o Daruma pela primeira vez. Na vitrine de uma loja japonesa, aquele bonequinho vermelho e rechonchudo, com os olhos estranhamente incompletos, parecia me observar com uma sabedoria antiga. Curioso como sou, entrei para perguntar o que era aquilo. A dona da loja, uma senhora simpática com sorriso enigmático, explicou: — É um Daruma. Você pinta um dos olhos quando faz um desejo. Se o desejo se realizar, pinta o outro olho para agradecer. Simples, não? Uma espécie de contrato com o universo. Mas aí vem o plot twist: e se o desejo não se realizar? A senhora sorriu de novo e disse:…
Como os Videogames me Tornaram um Autor Entusiasta por Criar Histórias
Quando criança, a leitura era minha única verdadeira saída quando queria me aventurar em mundos de fantasia. Eu adorava ação, batalhas e magia, mas me sentia limitada na forma de consumir essas histórias. Havia essa ideia de que, por eu ser um garotinho que gostava de fantasia, não me interessaria por coisas “de menino”, como esportes. Não importava que os livros que eu lia fossem a base para muitos dos jogos que estavam sendo lançados. Eu podia mergulhar em fantasia e ficção científica na leitura, mas sempre fui um péssimo jogador e precisava usar de gameshark para avançar. Todavia, o fato de ser filho único e com amigos da escola…
Carta a um velho amigo
Velhinho, Era assim que você me chamava quando éramos amigos, em um tempo que me recordo tão bem. Sempre pensei em te escrever uma carta, contar o que penso e fazer perguntas que jamais tive coragem de fazer. Lembro-me de um dia em que fui de carro até a casa da sua avó, onde você morava. Eu estava triste, desamparado e depressivo. Naquele momento, disse que não estava aguentando mais, sem precisar pronunciar aquela dolorosa palavra. Você não hesitou um segundo para me olhar e dizer o quanto eu era importante para você, que me queria em sua vida e que um dia eu seria o padrinho do seu casamento.…
A Londres Que Mudou a Minha Vida
Viajar sozinho para Londres? Se alguém me dissesse isso há alguns anos, eu teria rido da ideia, ou talvez, congelado de medo. A verdade é que sempre fui o tipo de pessoa que, só de pensar em sair da zona de conforto, já sentia o estômago revirar. Mas, em um daqueles momentos em que a vida te empurra, decidi enfrentar o medo de frente e embarcar nessa aventura. Minha relação com o medo é antiga, quase como um velho conhecido que sempre está por perto, sussurrando inseguranças em meu ouvido. Ele esteve comigo em todos os momentos, especialmente durante aqueles anos em que ataques de pânico se tornaram parte da…
Às vezes Apenas Quero Quebrar Tudo
Vocês já sentiram tanta raiva das coisas da vida, como um vento traiçoeiro que surge para puxar suas roupas para longe? Tem dias que sinto que o mundo cairá, que o mundo vai se craquelar nos mais diversos fragmentos das maiores e menores das minhas inseguranças. Me sinto cansado do que faço, com receio constante de nunca me achar bom o bastante. Olho minuto a minuto para algo que não pode ser concluído, com uma ânsia de preencher este vazio com outra tarefa que me pareça de certa forma prazerosa, ou ao menos, que me afaste da possibilidade de qualquer cobrança. Quem é que cobra? Não há aquele entregar de…
Desaprendi Os Bons Tempos
Chego em tenra idade, onde desaprendo tudo aquilo que me foi moldado nos últimos tempos. Aqueles bons tempos. Nada em vão passou, mas existe um certo receio em não sentir a mesma emoção de outros tempos que hoje confesso nem mais conseguir mensurar em pensamentos. Desaprendi a viver, não me agrada mais a breve ilusão de criar vínculos duradouros, sinto que as atitudes e aquilo que falo não causa nenhum impacto no outro. Ignoram as palavras, como se tivesse pronunciado em outro idioma, talvez em código binário, que só máquinas podem processar. Digo algo ofensivo? Falo coisas das quais não deveria? Está no silêncio do outro a mesma repulsa que…
Não era apenas um café
Em casa, mesmo que fosse a casa do meu avô, a hora do almoço costumava ser ritualística, quase religiosa. A empregada e nossa avó passavam horas na cozinha, em meio a cheiros e sabores, gritando e atravessando de um lado a outro com as imensas bacias de frango temperado, salada ou macarrão gelado com presunto de lata. Os pratos sempre variavam, mas não era como se nossa avó fosse uma boa cozinheira. Na verdade, ela cozinhava bem o que era prático; coisas muito mirabolantes para ela sempre custavam caro. Nosso avô estava em movimento; não saberia dizer ao certo, mas podia até estar parado assistindo TV, porém sua voz reverberava…
Verão fugaz
Já era o início do novo milênio, um ou dois anos após as pessoas ficarem assustadas com o fim do mundo, mas os anos e meses passaram, e voltamos às nossas rotinas. Na época, eu era um pré-adolescente tímido e cheio de manias. Naquele tempo, não imaginava o que era ter amigos, já que, para mim, sempre foram escassas as pessoas que podia chamar assim. Todo verão, me despedia nas últimas aulas dos colegas, aqueles que mais se pareciam com amigos, vinham até em casa, chamavam para aniversários e sempre estavam ao meu lado. Nessas férias, eu me afastava, não por querer, mas eles iam viajar, passar o final de…
O tropeço
Prometi a mim mesmo que seria cuidadoso. Parei em frente à praça após comprar água boricada e um kit de band-aids, enquanto meu companheiro estava ao meu lado, observando-me tratar a ferida da forma mais minuciosa possível. Havia caído, ou melhor, deslizado sobre aquele amontoado úmido de folhas e flores mortas que estava estagnado ali há tanto tempo. O vermelho das pétalas se misturava com o vermelho do sangue do meu joelho, que, em uma inútil tentativa de me fazer parar de deslizar, protegeu de alguma forma para que eu caísse levemente e não de cara no chão, ou até mesmo de costas. Era um dia decisivo para mim, pois…

























