resenha mil placebos de matheus borges
Resenhas

Resenha: Mil Placebos de Matheus Borges

Matheus Borges é um autor contemporâneo que se dedica a explorar os dilemas da vida moderna, colocando em debate a relação entre indivíduo e sociedade. Em Mil Placebos, ele se volta para as angústias do capitalismo e para os efeitos que a busca incessante por sentido provoca em nossas existências. O livro propõe reflexões densas sobre como os “placebos” que adotamos — sejam eles ideológicos, consumistas ou emocionais — nos anestesiam, mas não resolvem o vazio que carregamos.

Sinopse

E se o “homem do subsolo” de Dostoiévski tivesse acesso aos fóruns do 4chan? E se Poe, na hora de conceber suas novelas policiais, tivesse acesso aos futuros psicopatológicos que povoavam a mente de Ballard? E se nada disso fosse necessário, pois o capitalismo alienante e o submundo tecnológico estivessem levando, agora mesmo, jovens como o narrador deste livro a percorrerem o percurso trágico da solidão do espírito à desagregação mental, culminando em atos de violência impensável?

Questões como essas podem vir à mente do leitor que acompanha a trajetória do protagonista desse romance, um rapaz introspectivo e antissocial, mas de aguda percepção acerca das contradições da pós-modernidade, que cai na toca de coelho dos fóruns da internet. Quando a garota por quem é apaixonado tem um fim trágico e o administrador de seu fórum favorito desaparece misteriosamente, ele se deixa levar por impulsos investigativos que colocam em risco sua rotina e sua lucidez, para não dizer sua própria vida.

Em seu primeiro romance publicado, Matheus Borges demonstra seus poderes singulares de construção psicológica, evocação de detalhes e observação atenta da nossa realidade fraturada e saturada de informação. Humor pontual com tempero absurdo, comentário social e suspense noir-cibernético se somam a uma aura de paranoia pynchoniana, sem nunca perder de vista a emoção genuína que sustenta os personagens e faz o leitor antecipar cada pista e desenlace.

“A invenção já não era mais invenção”, rumina o protagonista, pois “foi suficiente para causar uma mudança profunda em minha personalidade”. Nas páginas virtuosísticas que concluem a história, o trocadilho deleuzeano do título revela sua incômoda sugestão: a de que as pílulas de realidade de que depende o inflado e frágil self contemporâneo jamais possam ter seu conteúdo devidamente conhecido e validado. “Verdades alternativas”, “deep fakes”, placebos. Pode crer. Daniel Galera

Minha avaliação

Mil Placebos é uma obra que parte de uma ideia muito instigante: relacionar a lógica do capitalismo com nossas próprias tentativas de lidar com o vazio existencial. Borges articula com clareza conceitos difíceis e, em muitos momentos, revela uma escrita estruturada e de qualidade. Ainda assim, a leitura me causou sentimentos mistos.

Apesar do talento narrativo, percebi que alguns trechos soam mais como a repetição de palavras-chave do que como desenvolvimento efetivo da trama ou das reflexões propostas. Isso tira força de certos capítulos, que acabam se tornando arrastados e cansativos. Outro ponto que me incomodou foi a fragilidade do enredo: não encontrei motivações consistentes no protagonista que justificassem suas ações. Muitas passagens parecem criadas apenas para preencher o caminho até o próximo capítulo, sem uma amarra narrativa convincente.

Por outro lado, é possível interpretar essa falta de propósito como parte da proposta do autor. Afinal, o protagonista parece mesmo se mover em um estado mental perturbado, o que pode justificar a sensação de estranhamento e desconexão. Assim, o desconforto que senti talvez não seja falha, mas efeito proposital — e, nesse caso, o livro se torna um espelho da própria experiência de viver em meio ao caos do sistema que critica.

Nota final

Mil Placebos é um livro que provoca reflexões importantes e apresenta uma escrita sólida, mas que sofre com repetições e com um enredo pouco convincente. O resultado é uma leitura interessante, embora marcada pelo estranhamento e pela falta de ritmo. Para leitores dispostos a mergulhar em um universo perturbador, pode ser uma experiência válida.

Nota: 2,5 de 5

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