terceira pessoa onisciente guia completo com exemplos
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Terceira Pessoa Onisciente: Guia Completo com Exemplos

A narrativa em terceira pessoa onisciente é uma das formas mais antigas de contar histórias, usada desde os tempos de Odin, Hércules e Amon-Rá. Esse ponto de vista permite que os leitores conheçam os pensamentos, emoções e experiências de vários personagens ao longo da trama, tornando-se uma das técnicas mais flexíveis — mas também desafiadoras — para os escritores.

Neste artigo, vamos explorar o que torna essa abordagem tão poderosa, por que foi amplamente utilizada no passado e os motivos de sua menor popularidade nos tempos modernos.

O que é a terceira pessoa onisciente?

A terceira pessoa onisciente é um estilo narrativo em que um narrador externo tem conhecimento absoluto sobre a história, incluindo os pensamentos, sentimentos e eventos que envolvem todos os personagens. Assim como na terceira pessoa limitada, esse tipo de narração utiliza pronomes como “ele”, “ela” e “eles” para descrever as ações e pensamentos dos personagens.

Veja um exemplo:

Ela queria conhecer o mundo, mas seu pai, que acreditava que o mundo era perigoso, proibiu-a de sair de casa.

Esse tipo de narrador é comparável a uma “visão divina”, ao ter acesso ilimitado a informações sobre a trama e seus personagens. Durante séculos, essa foi a forma dominante de narrativa, até que, a partir do século XX, a primeira pessoa e a terceira pessoa limitada se tornaram mais comuns. Atualmente, ainda é possível encontrar livros com essa abordagem, mas sua presença nas prateleiras é menos frequente.

Diferença entre terceira pessoa onisciente e terceira pessoa limitada

Embora ambas sejam variações do ponto de vista em terceira pessoa, há uma diferença essencial entre a onisciente e a limitada.

Na terceira pessoa limitada, a história é contada do ponto de vista de um único personagem por vez. O leitor tem acesso somente aos pensamentos, sentimentos e percepções desse personagem específico, sem saber diretamente o que os outros estão pensando.

Já na terceira pessoa onisciente, o narrador é externo à história, com conhecimento total dos acontecimentos, podendo revelar informações que os próprios personagens desconhecem. Esse narrador pode viajar entre diferentes pontos de vista e até compartilhar eventos passados ou futuros.

Por essa razão, a terceira pessoa onisciente é frequentemente chamada de narrador de olho de deus.

Vantagens da terceira pessoa onisciente

Quando bem utilizada, essa abordagem pode ser extremamente poderosa. Veja alguns motivos:

1. Maior amplitude e profundidade na narrativa

Um narrador onisciente permite que o autor explore as mentes de vários personagens, oferecendo uma visão ampla dos acontecimentos. Além disso, ele pode revelar informações que os personagens desconhecem, gerando impacto na narrativa.

2. Criação de suspense e ironia dramática

Como o narrador sabe mais do que os personagens, ele pode criar suspense ao antecipar eventos que ainda vão acontecer. Esse recurso, conhecido como ironia dramática, é comum na literatura e no cinema e pode ser usado para provocar humor ou tensão.

3. O narrador pode ter personalidade própria

Embora onisciente, esse narrador não precisa ser neutro. Ele pode ter um tom sarcástico, reflexivo ou até filosófico, influenciando como a história é contada. Exemplos notáveis incluem a série Discworld, de Terry Pratchett, e Orgulho e Preconceito, de Jane Austen.

Em A Menina que Roubava Livros, de Markus Zusak, o narrador é a própria Morte, oferecendo uma perspectiva única e emocionalmente carregada sobre os acontecimentos.

Desafios da terceira pessoa onisciente

Apesar de suas vantagens, esse ponto de vista apresenta dificuldades que podem torná-lo desafiador, especialmente para escritores iniciantes.

1. Risco de “contar” em vez de “mostrar”

É fácil cair na armadilha da exposição excessiva, tornando a narrativa menos envolvente. Um bom uso da terceira pessoa onisciente requer equilíbrio entre revelar informações e permitir que os leitores descubram os acontecimentos através da ação.

2. Menor imersão emocional

Comparado à primeira pessoa ou à terceira pessoa limitada, esse tipo de narrativa pode criar um certo distanciamento entre o leitor e os personagens. Se não for bem executado, pode parecer impessoal ou mecânico.

3. Complexidade na transição entre pontos de vista

Ao mudar de um personagem para outro, é essencial que a transição seja clara, evitando confusão. Mudanças abruptas podem prejudicar o fluxo da leitura.

Além disso, o mercado literário atual tende a favorecer narrativas mais íntimas, o que pode dificultar encontrar agentes e editoras dispostos a apostar em uma história escrita dessa forma.

Exemplos de terceira pessoa onisciente

1. O Segredo de Brokeback Mountain, de Annie Proulx

Durante o dia, Ennis olhava através de um grande vale e às vezes via Jack, um pequeno ponto movendo-se por um prado alto, como um inseto sobre uma toalha de mesa; Jack, em seu acampamento, via Ennis como uma faísca vermelha na escuridão da montanha.

Aqui, o narrador nos permite ver os pensamentos de ambos os personagens, algo impossível em um ponto de vista limitado.

2. Middlemarch, de George Eliot

Os problemáticos em uma família são geralmente os espertos ou os idiotas. Jonah era o esperto entre os Featherstones e brincava com as criadas quando elas se aproximavam da lareira, mas parecia considerar a Srta. Garth uma personagem suspeita.

O narrador adota uma postura analítica e até cínica, oferecendo uma visão quase sociológica dos personagens.

3. Discworld, de Terry Pratchett

Matar um mago de grau mais alto era uma forma reconhecida de promoção nas ordens. No entanto, a única pessoa que provavelmente desejaria matar o Tesoureiro era alguém que derivava prazer silencioso de colunas de números, e pessoas assim raramente cometem assassinato…

Pelo menos, até o dia em que pegam um estilete e abrem caminho pela Contabilidade de Custos.

Aqui, o narrador não somente conta a história, mas também insere humor e ironia, tornando-se quase um personagem por si só.

Quando usar a terceira pessoa onisciente?

Antes de escolher esse ponto de vista, considere as seguintes questões:

  • Seu gênero literário favorece essa abordagem? Fantasia épica e ficção literária frequentemente usam esse recurso.
  • Você deseja criar distanciamento ou proximidade com os leitores? A terceira pessoa onisciente lembra constantemente o leitor de que ele está ouvindo uma história.
  • Seu narrador tem uma voz própria? Se você deseja um narrador que ofereça comentários ou reflexões, esse pode ser o caminho certo.

Conclusão

A terceira pessoa onisciente é uma ferramenta poderosa para contar histórias, mas requer habilidade para ser bem utilizada. Se você optar por esse estilo, certifique-se de aplicá-lo com propósito e consistência.

Agora que exploramos essa abordagem narrativa, que tal experimentar em sua própria escrita?

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