
O Gerúndio na Literatura: Como Transformar um Recurso Polêmico em Estilo
Poucas construções da língua portuguesa despertam tantas opiniões quanto o gerúndio. Para alguns, ele representa um vício de linguagem associado ao famoso “gerundismo” do atendimento telefônico. Para outros, trata-se de um recurso legítimo da língua, capaz de transmitir movimento, duração e simultaneidade com uma naturalidade difícil de alcançar por outros meios. A verdade, como acontece com quase tudo na escrita literária, está longe dos extremos.
O gerúndio é uma forma nominal do verbo que expressa uma ação em desenvolvimento ou simultânea a outra ação. Na literatura, seu uso pode ampliar o ritmo da narrativa, sugerir continuidade e aproximar o leitor da experiência do personagem. O problema não está no gerúndio em si, mas no uso repetitivo, desnecessário ou artificial que caracteriza o chamado gerundismo.
Essa distinção é fundamental para qualquer escritor. Enquanto textos burocráticos frequentemente abusam do gerúndio por falta de precisão, grandes autores o utilizam de forma estratégica para produzir efeitos narrativos específicos. O segredo, portanto, não é evitar esse recurso, mas compreender exatamente quando ele fortalece a escrita e quando apenas torna a frase mais pesada.
O que é o gerúndio?
Na gramática da língua portuguesa, o gerúndio é uma das formas nominais do verbo, ao lado do infinitivo e do particípio. Em geral, indica uma ação em andamento ou uma situação que acontece simultaneamente a outra.
Veja alguns exemplos simples:
- Caminhando, ela percebeu que havia esquecido as chaves.
- O vento atravessava as árvores, espalhando folhas pelo jardim.
- Ele permaneceu em silêncio, observando a chuva cair.
Em todos esses casos, o gerúndio não existe apenas para informar uma ação. Ele conecta acontecimentos, cria continuidade e altera o ritmo da frase.
É justamente essa capacidade que desperta o interesse da literatura.
O problema não é o gerúndio. É o gerundismo.
Grande parte da má reputação do gerúndio surgiu por causa do chamado gerundismo, construção que se popularizou em atendimentos telefônicos e textos administrativos.
Expressões como:
- “Vou estar verificando.”
- “Vamos estar encaminhando.”
- “Estaremos entrando em contato.”
tornaram-se sinônimo de linguagem burocrática, pouco objetiva e, muitas vezes, desnecessariamente prolixa.
Nesses casos, o gerúndio poderia ser substituído por formas verbais mais simples:
- Vou verificar.
- Vamos encaminhar.
- Entraremos em contato.
A frase ganha clareza sem perder significado.
Na literatura, entretanto, a lógica é diferente.
O objetivo não é apenas transmitir informação, mas construir uma determinada experiência de leitura.
Quando o gerúndio fortalece a narrativa
Imagine a seguinte cena.
A menina atravessou o bosque.
É uma frase correta, objetiva e eficiente.
Agora observe:
A menina atravessava o bosque, desviando dos galhos baixos enquanto o vento carregava folhas secas sobre a trilha.
Nenhuma informação essencial foi acrescentada.
Mesmo assim, a segunda versão produz uma sensação completamente diferente.
O gerúndio cria continuidade. O leitor deixa de observar uma ação concluída e passa a acompanhá-la enquanto acontece. Existe uma impressão de movimento permanente, como se a câmera permanecesse ligada durante toda a cena.
Esse efeito explica por que tantos escritores recorrem ao gerúndio em momentos contemplativos.
Ritmo, duração e simultaneidade
A literatura não trabalha apenas com acontecimentos.
Ela também trabalha com tempo.
Um dos maiores méritos do gerúndio está justamente na possibilidade de condensar diferentes ações dentro de um mesmo fluxo narrativo.
Veja este exemplo:
O velho caminhava lentamente pela praia, recolhendo conchas enquanto observava o mar desaparecer sob a neblina.
Repare como três ações coexistem naturalmente:
- caminhar;
- recolher conchas;
- observar o horizonte.
Se cada uma delas fosse transformada em uma oração independente, o ritmo se tornaria muito mais fragmentado.
O gerúndio permite que todas façam parte do mesmo movimento.
Grandes escritores utilizam o gerúndio — e muito
Existe um equívoco recorrente entre escritores iniciantes: acreditar que autores consagrados evitam o gerúndio por considerá-lo um recurso pobre.
Basta abrir alguns clássicos para perceber exatamente o contrário.
Machado de Assis utiliza frequentemente o gerúndio para tornar a narração mais fluida e aproximar ações simultâneas sem interromper o ritmo da prosa.
Guimarães Rosa explora essa forma verbal para reforçar a oralidade e o fluxo contínuo de seus narradores.
Já Clarice Lispector recorre ao gerúndio como instrumento de introspecção. Em muitos trechos, seus personagens parecem pensar enquanto vivem a experiência narrada, criando uma sensação de consciência em permanente transformação.
Não se trata de uma escolha gramatical.
Trata-se de uma escolha estilística.
Quando o gerúndio começa a enfraquecer o texto
Como qualquer recurso expressivo, o gerúndio perde força quando aparece em excesso.
Um exemplo:
Entrando na sala, olhando para todos, respirando fundo, procurando coragem, segurando as lágrimas, caminhando lentamente…
Perceba que nenhuma construção está errada.
Ainda assim, a repetição constante produz um ritmo artificial.
O leitor passa a perceber mais a estrutura das frases do que a cena propriamente dita.
Isso acontece porque toda escolha estilística depende de contraste.
Uma narrativa composta quase exclusivamente por períodos semelhantes acaba perdendo variedade sonora e sintática.
Como identificar exageros
Durante a revisão do texto, faça algumas perguntas:
- Existem muitos gerúndios concentrados no mesmo parágrafo?
- Eles realmente indicam simultaneidade ou apenas alongam frases?
- A cena perderia alguma nuance se um deles fosse substituído por outro tempo verbal?
- O ritmo continua natural quando o texto é lido em voz alta?
Essas perguntas ajudam a separar o uso expressivo do simples hábito de construção.
O gerúndio também cria atmosfera
Além da simultaneidade, o gerúndio possui uma característica pouco comentada: ele transmite continuidade.
Observe:
A fumaça subia lentamente.
Agora:
A fumaça foi subindo lentamente.
Embora a diferença seja sutil, a segunda construção amplia a sensação de duração.
É justamente esse efeito que torna o gerúndio especialmente útil em descrições de natureza, estados emocionais e cenas contemplativas.
Autores como Virginia Woolf exploram frequentemente esse tipo de construção para sugerir que o tempo psicológico se dilata, permitindo ao leitor permanecer mais tempo dentro da percepção do personagem.
Menos regra, mais intenção
O maior erro que um escritor pode cometer é revisar seu texto apenas procurando “proibições”.
A literatura não funciona dessa maneira.
Uma frase pode conter três gerúndios e soar perfeita.
Outra pode possuir apenas um e parecer excessivamente burocrática.
A diferença não está na quantidade, mas na intenção.
Pergunte sempre:
Esse gerúndio torna a leitura mais viva ou apenas mais longa?
Se a resposta for a primeira opção, provavelmente ele merece permanecer.
Exercício de escrita criativa
Escreva uma cena curta em que um personagem observa uma tempestade pela janela.
Na primeira versão, evite completamente o gerúndio.
Depois, reescreva a mesma cena utilizando-o apenas quando ele acrescentar sensação de continuidade ou simultaneidade.
Leia ambas em voz alta.
Qual delas transmite melhor a passagem do tempo?
Qual faz o leitor permanecer mais tempo dentro da cena?
Esse exercício costuma revelar que o gerúndio não é um inimigo da boa escrita. Ele é apenas mais uma ferramenta disponível para quem aprende a utilizá-la com consciência.
Conclusão
O gerúndio nunca foi o vilão da literatura.
Sua má reputação nasceu do uso burocrático e repetitivo, não da própria estrutura gramatical. Quando empregado de maneira consciente, ele amplia o ritmo da narrativa, aproxima ações simultâneas e ajuda a construir uma experiência de leitura mais fluida e sensorial.
Como acontece com qualquer recurso estilístico, o segredo está no equilíbrio. Grandes escritores não evitam o gerúndio por princípio, nem o utilizam indiscriminadamente. Eles escolhem cada ocorrência porque sabem exatamente o efeito que desejam provocar.
Em última análise, essa talvez seja a melhor definição de estilo: não seguir regras cegamente, mas compreender por que cada escolha existe.
Leituras recomendadas
Para aprofundar o estudo sobre o gerúndio e seu funcionamento na língua portuguesa, vale consultar:
- CUNHA, Celso; CINTRA, Lindley. Nova Gramática do Português Contemporâneo. Uma das principais referências da gramática normativa brasileira.
- BECHARA, Evanildo. Moderna Gramática Portuguesa. Obra de referência para compreender o emprego das formas nominais do verbo.
- Portal da Academia Brasileira de Letras (ABL) – Artigos e consultas sobre usos da língua portuguesa.
- Brasil Escola – Verbete sobre gerúndio e formas nominais do verbo, útil para revisar os fundamentos gramaticais antes de explorar seus usos literários.
- Mundo Educação – Material complementar sobre o gerúndio e diferenças entre uso correto e gerundismo.
Você costuma evitar o gerúndio por medo de parecer pouco elegante ou já descobriu como utilizá-lo para enriquecer sua narrativa? Compartilhe sua experiência nos comentários.


