por que editores temem mais o goodreads do que o governo
Carreira Literária

Por que os editores de hoje temem mais o Goodreads do que o governo

A reação negativa nas redes sociais e o bombardeio de resenhas estão cada vez mais levando a atrasos, revisões ou cancelamentos de livros antes do lançamento. Isso criou uma cultura de autocensura, na qual até mesmo autores progressistas estão sendo silenciados pela pressão pública. Embora enraizado em boas intenções de promover diversidade e sensibilidade, o movimento evoluiu para um pânico moral que ameaça a liberdade de expressão e sufoca a criatividade.

Em That Book Is Dangerous (Esse Livro é Perigoso), o autor Adam Szetela examina a ascensão da “Era da Sensibilidade” no mercado editorial e como campanhas de indignação tentam controlar quais livros os autores podem escrever e os leitores podem ler.

Cancelamentos e exemplos recentes

No início de 2025, a Bloom Books cancelou o lançamento do novo romance de Sophie Lark, Sparrow and Vine, após críticas de leitores que apontaram o personagem como racista e ligado a símbolos políticos conservadores.

Outro caso ocorreu em 2023, quando Elizabeth Gilbert, autora de Comer, Rezar, Amar, adiou indefinidamente o lançamento de A Floresta de Neve, ambientado na Rússia dos anos 1930. O livro recebeu resenhas negativas em massa no Goodreads por conta da guerra na Ucrânia.

Em 2019, a autora Amélie Wen Zhao enfrentou polêmica com seu livro Blood Heir, acusado de insensibilidade racial. Após críticas e pedidos de desculpas, ela revisou o manuscrito antes da publicação.

A “Era da Sensibilidade”

Esses episódios ilustram o que Szetela chama de “Era da Sensibilidade”: um período em que autores e editores, temendo perder vendas ou reputação, optam pela autocensura. Segundo ele, críticas negativas online influenciam não somente leitores, mas também professores, bibliotecários e livreiros, impactando diretamente o mercado.

Szetela argumenta que, enquanto a direita conservadora pratica censura legislativa em estados como a Flórida, a esquerda progressista exerce uma forma de censura cultural por meio de campanhas de pressão nas redes sociais e nas instituições culturais. Para ele, ambas resultam em restrições à liberdade de leitura.

O pânico moral e seus paralelos históricos

Szetela compara o cenário atual ao pânico moral dos anos 1950, quando quadrinhos foram queimados sob alegações de que causariam delinquência juvenil. Hoje, a justificativa seria a proteção contra preconceitos e injustiças. Em ambos os casos, porém, a lógica é a mesma: atribuir efeitos nocivos diretos às obras e tentar eliminá-las.

Ele destaca que não existem evidências robustas de que um livro seja “perigoso” a ponto de moldar negativamente um grupo inteiro de pessoas. Pelo contrário, estudos sugerem que a leitura de ficção pode aumentar a empatia, ainda que modestamente.

Autores sob ataque

Paradoxalmente, muitos dos alvos dessas campanhas são autores de minorias ou progressistas. Exemplos citados incluem:

  • Kosoko Jackson, autor negro e gay, que cancelou Um Lugar para Lobos após críticas ao cenário de guerra do Kosovo.
  • Ramin Ganeshram e Vanessa Brantley-Newton, autoras negras, acusadas de “branquear a escravidão” em um livro infantil.
  • Becky Albertalli, autora de Simon vs. the Homo Sapiens Agenda, criticada por não representar “autenticidade” suficiente.

Szetela mostra como essa pressão obriga autores a se limitarem a identidades ou experiências “apropriadas” e mina a diversidade que o movimento dizia promover.

Conclusão

Para Szetela, a crítica literária deveria ampliar o debate, e não o silenciar. Ele defende que obras desconfortáveis devem ser lidas e discutidas, não eliminadas.

Acima de tudo, Esse Livro É Perigoso é um argumento a favor da leitura de livros”, afirma. “O fato de ser preciso defender a leitura de livros já indica os riscos desse pânico moral.


Publicado originalmente em: Big Think

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