
Resenha: Rainhas da Noite de Chico Felitti
Rainhas da Noite, de Chico Felitti, é uma obra que mergulha na história marginal e pouco documentada do centro de São Paulo, especialmente nas décadas marcadas pela precariedade, violência e resistência da população LGBTQIA+. Conhecido por seu trabalho jornalístico investigativo e por dar voz a personagens invisibilizados pela história oficial, Felitti constrói aqui um retrato denso e humano das figuras que comandavam o submundo paulistano. O livro se apoia em relatos diretos, memórias e reconstruções históricas para revelar um Brasil que muitos preferiram não enxergar.
Resenha
O trabalho do autor não é um mero registro jornalístico. Chico busca dar voz, corpo e complexidade às figuras que dominavam o centro de São Paulo, muitas vezes reduzidas a estereótipos ou manchetes sensacionalistas. Ao longo da narrativa, conhecemos personagens que viveram à margem da sociedade formal, mas que criaram, à sua maneira, formas de organização, sobrevivência e até liderança em meio ao caos urbano.
Entre esses nomes está Kaká di Polly, drag queen lendária que viveu naquele cenário e preservou as histórias dessas personagens com coragem e franqueza. Kaká não foi apenas testemunha — foi protagonista. Tornou-se uma das figuras centrais na mobilização que levou à realização da primeira Parada LGBT de São Paulo, marco histórico para a comunidade. Sua presença no livro simboliza memória, resistência e articulação política em um tempo em que existir já era um ato de enfrentamento.
A narrativa de Felitti por vezes flerta com o tom de true crime, afinal, estamos falando de pessoas envolvidas em crimes, disputas de território e relações atravessadas por violência. No entanto, reduzir a obra a esse gênero seria simplificá-la demais. O livro revela que, em meio à miséria, à exclusão e à exploração, essas figuras também buscavam criar redes de apoio e pertencimento. Eram lideranças informais que organizavam espaços de acolhimento e sobrevivência para travestis, mulheres trans e outras pessoas LGBTQIA+ expulsas de casa e do mercado formal de trabalho.
A leitura se torna essencial especialmente para pessoas LGBTQIA+ que desejam compreender a realidade brasileira de décadas anteriores — uma realidade marcada por repressão policial, estigmatização social e ausência quase total de políticas públicas. Ao olhar para esse passado, o livro nos obriga a reconhecer tanto os avanços conquistados quanto os privilégios que hoje, muitas vezes, naturalizamos. Ao mesmo tempo, evidencia que a luta está longe de terminar.
Rainhas da Noite não romantiza a marginalidade, mas também não a julga de forma simplista. O que o autor faz é devolver humanidade a personagens que a história insistiu em tratar como caricaturas ou ameaças. O resultado é uma obra potente, necessária e politicamente relevante.
Nota

⭐⭐⭐⭐
4/5
Uma leitura impactante, informativa e emocionalmente forte — fundamental para entender a trajetória de resistência da comunidade LGBTQIA+ no Brasil e refletir sobre os caminhos que ainda precisamos trilhar.


