
Review – O Mau Selvagem de Álvaro Filho
Álvaro Filho constrói em O Mau Selvagem, publicado pela editora Urutau, um romance ousado, bem escrito e provocador, que não teme cutucar sensibilidades históricas e sociais. Publicado em Portugal, o livro naturalmente incomoda certos setores conservadores – aqueles mesmos que ainda carregam a nostalgia colonial e o impulso de “catequizar” os estrangeiros como se fossem seres a corrigir. Não surpreende que boa parte das críticas mais ácidas venha de um grupo muito específico: portugueses de extrema-direita, homens e mulheres privilegiados, loiros de olhos claros, que exigem ser servidos numa tasca aos gritos de “Oh menina, vem cá agora!”. Pisam nos seus e pisam com mais força nos estrangeiros.
Mas o romance é muito mais do que uma afronta política. O autor brinca com o gênero policial, subverte clichés do romance de detetive e nos leva por uma narrativa que oscila entre investigação, sátira e reflexão social. O narrador – também imigrante brasileiro – embarca na busca pelo “Mau Selvagem”, ex-funcionário que se tornou uma espécie de lenda urbana, lembrado entre cochichos e temores. A partir dessa investigação, a trama vai revelando não somente segredos literários, mas também as fissuras de um país que ainda se esforça para lidar com suas heranças coloniais.
O ponto alto está na forma como o autor descreve a experiência migratória: os diplomas que não valem, os empregos subalternos, o preconceito velado (e às vezes explícito) contra brasileiros que ousam não se submeter. É uma crítica certeira – e sim, há preconceito em Portugal, não de todos, mas de uma fatia barulhenta e poderosa, que Álvaro Filho expõe com precisão cirúrgica. Nesse sentido, o livro funciona tanto como espelho para os imigrantes quanto como alerta para os portugueses que desejam construir uma sociedade mais justa e acolhedora.
Ao mesmo tempo, o romance mantém um ritmo vivo, por vezes espirituoso, sem se deixar reduzir ao panfleto. O “Mau Selvagem” surge como símbolo ambíguo: entre a resistência e a violência, entre o mito e o desengano. O resultado é um livro que, além de provocar reflexão, diverte e surpreende, mas poderia ter seguido um caminho diferente em um desfecho não muito fora dos melhores romances policiais.
Em resumo: O Mau Selvagem é literatura que incomoda, diverte e denuncia. Álvaro Filho reafirma sua força narrativa ao misturar crítica social e experimentação de gênero, lembrando-nos que o romance pode ser, sim, uma arma contra os privilégios e arrogâncias ainda tão enraizados em nossa história compartilhada.
Nota: 4 de 5


