
Sou um Portão
Sou um portão.
O receptáculo das memórias daqueles que cruzaram por mim.
Das classes sociais que se misturaram — ou se separaram — diante de mim.
Dos amores e dores que me acompanharam por décadas.
Uma das filhas já passou suspirando de amores, sonhando em casar nos meus domínios, naquela igreja simpática a poucos passos daqui.
Era como se convidasse meus velhos amigos a fazerem o sinal da cruz.
Antes dela, vieram os zeladores — uma família que se estende como herança e escravidão.
Um teto para morar de graça, desde que zelassem pelas minhas entranhas.
Foram muitas famílias: umas ficaram pouco; outras batiam palmas coladas a mim, pedindo emprego.
Mas os senhores avaliavam pela cor da pele, e o racismo lhes fechava o coração.
Escolheram então essa família, que um dia fora expulsa, mas voltou quando ninguém mais quis ficar.
Amor tenho por eles — torço pelos filhos, ainda jovens, ainda abertos ao mundo.
Um deles, que há pouco saiu do armário, passa por mim com o coração vibrando; vai ver seu amor em São Paulo.
Outro dia, uma das filhas voltou para fazer uma festa.
Acendeu velas pretas e vermelhas pelo caminho — achei que fosse o Dia das Bruxas.
Fiquei feliz por participar de algo diferente, não apenas casamentos ou aniversários.
Minha alegria cessou quando a família mandou apagar tudo: diziam ser bruxaria.
Senti saudades do tempo em que brincavam com a ideia de que aqui morava um Saci.
Ninguém mais joga bocha.
A areia endureceu, as bolas se perderam no mato.
Lembro da mesa de sacrifício e dos porcos chorando quando as facas lhes rasgavam o peito.
Fiquei feliz quando parei de escutar esses lamentos — os animais também são moradores dentro de mim.
Os anos 80 e 90 foram uma festa atrás da outra.
Primos, filhos e netos desbravando o meu pequeno mundo.
Cuidei de todos — pedi aos ventos que os avisassem dos teiús e das aranhas coloridas.
Talvez meus pedidos tenham sido ouvidos:
começaram a vir menos, até pararem de vez.
O mundo deles descoloriu, e o meu também.
Mesmo nos dias ensolarados, o céu parece cinza.
As visitas falam do passado, mas ninguém me quer como algo novo.
No meu peito ainda guardo a velha roda de carroça, protegendo-me de sabe-se lá o quê.
Sei que o último membro da família que ainda me ama olha minha foto de longe —
tenta me ver do satélite, vendo minha evolução de 2001 a 2025.
Fiquei feio, mal cuidado.
A piscina que amavam virou um pântano verde, cheio de rãs espancadas com vassouras.
O casarão tenta se manter no tempo, mas o resto… ninguém mais sabe.
Como eles, eu também fico na memória.
Tudo que vivemos é agora lembrança.
A roda que me protegia será tirada.
No lugar, uma placa de Vende-se.
Condenando-me ao fim desta jornada.
Não estarei mais aqui —
mas ainda serei lembrado por você,
que há de me guardar no coração.


