sobre saber fazer e criar cicatrizes
Crônicas

Sobre Saber Fazer e Criar Cicatrizes

Um passo para frente e um passo para trás. Essa foi a definição que me deram quando entrava no meu ano 2 na numerologia.

Para aqueles que acreditam ou não, os números sempre me foram muito bem correspondentes às expectativas e eventos na minha vida. Os setênios me perseguiam em suas incessantes especificações de como o próximo ciclo poderia seguir, errando um ou três anos em seus inícios e términos, por isso os acompanhava e buscava prestar atenção aos seus remendos na existência.

Falar de números é falar de datas e acontecimentos — para alguém definido por psicólogos e psicanalistas como um excelente sobrevivente — que não existem, pois os esqueço e somente guardo os parcos aniversários e mortes. Afinal, sei o começo e o fim, mas tenho receio dos meios e, por isso, não os observo enquanto os vivo.

Recordar os números é encontrar a história e sua verdade, quando verdadeira, desvelada em minha frente como fatos inegáveis. O conflito cresce na memória, que se distingue daquilo que é ou poderia ser verdade. Um avô amável, que carrega o seu neto com todo o cuidado para todos os lados, esconde um ser rústico, patriarcal e que poderia colocar todo o seu ódio e incompreensão na mesa, se necessário.

Está aqui armada a luta dos vivos com os mortos. Da história catalogada no diário dos imigrantes que chegaram nas últimas levas da Itália e do Japão, dos romances anotados em cartórios e dos seus óbitos, é claro. Da memória, em sua fantasia bélica, que nubla as verdades e protege o seu inconsciente do mais doce ou amargo que possa ter acontecido.

O avô que te leva para tomar um café e um chocolate na vendinha do japonês é o mesmo que briga quase babando de raiva por ajudar a avó a matar uma galinha para o almoço. Na história, me dizem que ele era budista e seus valores haviam mudado, porém, a memória remete à desobediência infantil e à agressão verbal trocada da criança com o adulto malvado. O que foi verdade e o que foi mentira? Ambos mortos, nenhum dos dois poderá dizer, e a memória dos seus filhos e primos esconderá ainda mais as verdades de suas histórias.

Quem conta um conto, aumenta um ponto. Não existe verdade quando tem razão, mas existe memória para cada emoção.

No vórtice de memórias, conforme os anos passam e as pessoas falecem, as histórias se tornam fatos chatos em seus números isolados em papéis timbrados amarelados. Fica então fadada a memória a reescrever os fatos e os atos, deixar o tempo enterrar ainda mais as celuloses e preservar as neuroses.

Seu encerramento é unido à morte e a herança se torna a história de novo. Os números, valores a receber, bens que sobraram, dívidas, advogados e herdeiros. Números de registro, de anotações em cartórios e contas bancárias. São os números que odeio, que materializam a verdade. Quero a memória, mas essa, velha amiga, não existe aqui.

O começo, eu já sei, foi em um sítio no interior de Santa Isabel, onde as gotículas de memória borbulham, seguindo ao sobrado localizado no Belenzinho, mas há quem diga Mooca para parecer mais chique. Uma atrás da outra, ignorando os números dos anos, seguindo de uma fofoca a outra, até não haver mais nada, somente memórias sem histórias.

Com a morte da única pessoa que é o laço frágil, magia desfeita, feitiço desfeito, nada feito até todos assinarem. Até lá, acostumar-se com a memória que nunca mais reviverá ao vivo e a cores, na casa que subia suas escadarias de mármore preto e branco, na segurança do corrimão que começa pequeno no alto e vai crescendo em sua tinta branca descascada na base da escada. Do sítio, do lago dos patos com suas aranhas coloridas e venenosas, do matadouro, onde um porco chorou enquanto era apunhalado, da quadra de boccia logo ao lado, dos cavalos, do touro Mimoso, do lago e suas rãs e sapos-bois, da árvore de jabuticaba, do filho do caseiro, gay como eu, sem saber o que somos, que nunca pude pedir desculpa por ser um burguês safado e o ter machucado no poder que haviam me dado.

Assino embaixo, este seu contrato. É fim? Posso mesmo dar um fim? Laço quebrado, coração não mais despedaçado. Cicatriz sara, números voltam a desaparecer, memória segue, talvez firme ou quem sabe tão breve. Nunca mais vou olhar, mas é assim mesmo que deve ser, nostalgia é um câncer e eu não vou deixar crescer o mal em mim. Ok, já foi, obrigado, vamos seguindo, logo mais falo com o psicanalista, tenho certeza de que vou lhe tirar um sorriso antes que fique sério e volte a me fazer a pergunta.

Por que você usou essa palavra? Corte lacaniano! Vamos deixar para a próxima sessão.

Um escritor já disse: escrever é sobre saber fazer e criar cicatrizes. Me pergunto: se as feridas mais profundas podem se regenerar, não teriam as lembranças mudado suas cores sombrias para tons pastéis, assim como as memórias trancadas nas pequenas caixas da minha mente, solitárias até que eu queira as retirar e apreciar suas verdades e mentiras?

O ponto final de agora pode trazer um tsunami em breve ou uma breve marolinha. Preparo o guarda-chuva ou a boia?

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