
Os 6 Erros de Escrita que Autores Iniciantes Cometem e Como Corrigir
Todo escritor começa cometendo erros. Isso faz parte do processo. O problema não está em errar, mas em repetir hábitos que enfraquecem a narrativa e afastam o leitor da história. A boa notícia é que muitos desses problemas aparecem com frequência nos manuscritos de autores iniciantes e podem ser corrigidos com revisão, prática e atenção aos detalhes.
Se você está escrevendo seu primeiro livro ou já publica de forma independente há algum tempo, conhecer esses deslizes ajuda a enxergar o próprio texto com mais clareza. Alguns parecem pequenos, mas podem comprometer o ritmo, a naturalidade dos diálogos e até a conexão emocional entre leitor e personagem.
A seguir, vamos analisar seis erros muito comuns na escrita de ficção e entender como evitá-los durante a revisão do manuscrito.
Verborragia e excesso de palavras
Um dos problemas mais frequentes entre escritores iniciantes é acreditar que escrever mais significa escrever melhor. Isso geralmente resulta em frases longas, descrições exageradas e excesso de adjetivos e advérbios.
Em muitos casos, o autor tenta reforçar a cena usando palavras desnecessárias. O problema é que isso deixa a leitura lenta e artificial. Quando tudo recebe destaque, nada realmente chama atenção.
Veja este exemplo:
“Ela caminhou lentamente pela rua escura e silenciosa.”
Nem sempre é preciso dizer que a rua silenciosa era escura ou que a personagem caminhou lentamente. Dependendo do contexto, o próprio clima da cena já transmite essa sensação.
Uma escrita mais forte costuma apostar em verbos e substantivos mais precisos. Em vez de explicar demais, escolha palavras que carreguem significado por si só.
Durante a revisão, procure frases que poderiam ser simplificadas sem perder sentido. Muitas vezes, cortar melhora o impacto do texto.
Explicar demais em vez de mostrar
O famoso “mostrar em vez de contar” continua sendo uma das maiores dificuldades para quem está começando. Isso acontece quando o autor explica emoções, conflitos ou informações que poderiam ser percebidos naturalmente pelo leitor.
Em vez de dizer:
“Marina estava nervosa.”
Você pode mostrar o nervosismo:
“Marina apertava os dedos contra a manga da blusa enquanto evitava olhar para a porta.”
A diferença está na experiência do leitor. Quando tudo é explicado, a narrativa perde força e parece artificial. O leitor gosta de interpretar comportamentos, perceber sinais e montar parte da história sozinho.
Esse erro também aparece muito nos diálogos expositivos. São conversas em que os personagens falam coisas que ninguém diria em uma situação real apenas para informar o leitor.
Por exemplo:
“Como você sabe, irmão, nossa família mora nesta cidade desde 1987.”
Ninguém fala assim naturalmente.
O diálogo deve soar humano. Ele precisa desenvolver a trama, revelar personalidade e criar tensão, não funcionar como aula de história.
Descrições excessivas de personagens
Outro hábito comum é interromper a narrativa para apresentar um personagem com uma descrição completa da cabeça aos pés.
Cor dos olhos, formato do nariz, tipo de roupa, altura, penteado, tudo aparece de uma vez só. Além de cansativo, isso dificulta a imersão.
Na prática, os leitores raramente memorizam listas de características físicas. O que realmente torna um personagem marcante são suas ações, sua voz e a maneira como ele reage ao mundo.
Em vez de escrever:
“Lucas tinha olhos verdes brilhantes, cabelos castanhos ondulados e usava uma camisa azul de mangas dobradas.”
Você pode inserir detalhes ao longo da narrativa:
“Lucas dobrava as mangas da camisa enquanto observava tudo em silêncio.”
Descrições funcionam melhor quando aparecem de forma orgânica, integradas à cena e à movimentação da história.
Troca constante de ponto de vista
Muitos autores iniciantes mudam de ponto de vista sem perceber. Em uma mesma cena, entram nos pensamentos de vários personagens diferentes, criando confusão e quebrando a imersão.
Esse problema é conhecido como “head hopping”.
Imagine uma cena em que acompanhamos Ana. De repente, no meio do parágrafo, passamos a saber exatamente o que Carlos pensa. Logo depois, descobrimos o medo secreto de Júlia. Quando isso acontece sem controle, o leitor perde a referência emocional da narrativa.
Manter um ponto de vista consistente torna a leitura mais envolvente e fortalece a conexão com o protagonista.
Isso não significa que você nunca possa usar múltiplos pontos de vista. Muitos romances trabalham com mais de um narrador. O importante é que essas mudanças sejam claras e organizadas.
Se decidir alternar perspectivas, faça isso entre capítulos ou cenas bem delimitadas.
Etiquetas de diálogo exageradas
Na tentativa de evitar repetir “disse”, muitos escritores recorrem a verbos elaborados demais.
Então aparecem frases como:
“Eu não acredito nisso”, ela esbravejou.
“Saia daqui”, ele rugiu.
“Claro”, ela cantarolou.
O problema é que essas marcas chamam atenção demais para si mesmas. Em vez de ajudar, acabam distraindo o leitor.
Na maior parte do tempo, “disse” é invisível. O leitor passa por ele sem perceber. E isso é ótimo.
Além disso, o próprio diálogo deve transmitir emoção. Se a cena estiver bem construída, o leitor entenderá se o personagem está irritado, triste ou nervoso sem precisar de explicações exageradas.
Em muitos casos, você também pode eliminar completamente a marcação quando já está claro quem está falando.
Problemas de construção frasal
Erros gramaticais acontecem com qualquer escritor, mas algumas construções específicas aparecem com frequência em textos iniciantes. Entre elas estão os modificadores deslocados, frases ambíguas e períodos confusos.
Veja este exemplo:
“Depois de terminar o jantar, a televisão foi ligada.”
A frase sugere, sem querer, que a televisão terminou o jantar.
Esse tipo de construção atrapalha a clareza do texto e pode até gerar interpretações engraçadas involuntariamente.
Na revisão, leia cada frase com atenção e observe se a ação está ligada corretamente ao sujeito.
Outra dica importante é evitar períodos longos demais. Frases excessivamente complexas cansam o leitor e dificultam a compreensão.
Escrever bem também significa escrever com clareza.
Ler em voz alta faz diferença
Existe uma técnica simples que ajuda a identificar praticamente todos os problemas citados acima: ler o texto em voz alta.
Quando ouvimos a própria escrita, percebemos repetições, diálogos artificiais, frases truncadas e trechos cansativos com muito mais facilidade.
Muitos autores se surpreendem ao descobrir que cenas aparentemente boas no papel não funcionam tão bem quando lidas em voz alta.
Esse hábito melhora o ritmo da narrativa e ajuda a tornar a escrita mais natural.
Todo escritor evolui revisando
Nenhum autor nasce pronto. A escrita é construída com prática, leitura e revisão constante. Os erros mais comuns não devem desanimar ninguém. Pelo contrário. Reconhecê-los é justamente o primeiro passo para amadurecer sua narrativa.
Autores iniciantes costumam focar muito na inspiração e pouco na lapidação do texto. Mas é na revisão que um manuscrito realmente ganha força.
Cortar excessos, melhorar diálogos, ajustar o ponto de vista e tornar a escrita mais fluida faz parte do trabalho de qualquer escritor profissional.
Quanto mais consciência você tiver sobre esses problemas, mais fácil será identificá-los nos próprios textos e criar histórias cada vez mais envolventes para seus leitores.



Um comentário
Guilherme
Muito bom o texto, Raphael. Essas são boas dicas para quem está começando a escrever estórias. Tem dar dicas de como começar a estória de um livro?