a prosa que a academia nao ve por que obras populares tem o direito de ser chamadas de literatura
Carreira Literária

A Prosa que a Academia Não Vê: por que obras populares têm o direito de ser chamadas de literatura

O mundo dos livros vive de polêmicas, mas poucas tocam em uma ferida tão profunda quanto a do que, afinal, merece ser chamado de “literatura de verdade”. Recentemente, a fala da professora Aurora Bernardini, de que autores aclamados como Annie Ernaux, Elena Ferrante e Itamar Vieira Junior produzem obras “interessantes, mas não literatura”, reacendeu o debate.

Sua crítica se concentra na forma e no estilo, sugerindo que a escrita desses autores, por ser mais acessível ou direta, carece da complexidade artística necessária para ascender ao panteão da “alta literatura”. No entanto, essa visão não somente limita o conceito de arte, mas ignora que a forma de uma obra não se mede somente pela sua dificuldade, mas pela sua eficácia em serviço do conteúdo. O verdadeiro teste da maestria literária talvez resida na capacidade de usar a simplicidade para tocar o que há de mais complexo na experiência humana.

Acessibilidade não é sinônimo de falta de qualidade

Em um mundo onde a literatura se expande para além das paredes da academia, é sempre um choque quando vozes consagradas desqualificam autores contemporâneos. A matéria “Itamar, Ernaux e Ferrante são interessantes, mas não literatura, diz Aurora Bernardini“, veiculada no jornal Folha, causou polêmica ao sugerir que escritores como Annie Ernaux, Elena Ferrante e Itamar Vieira Junior, apesar de “interessantes”, não produzem “literatura de verdade”. A principal crítica? Aparentemente, eles não apresentam um estilo ou forma original, privilegiando, em vez disso, o conteúdo de suas narrativas.

Essa visão, no entanto, levanta uma questão crucial sobre o que realmente define uma obra literária. Afinal, a literatura só é “verdadeira” se for difícil, complexa e hermética? Ou será que a maestria reside na capacidade de encontrar a forma perfeita para o conteúdo, mesmo que essa forma seja aparentemente simples?

O Elitismo na Literatura

A premissa de que a “alta literatura” deve ser um desafio intelectual é um reflexo de um certo elitismo. Essa visão valoriza a complexidade pela complexidade, ignorando que a acessibilidade pode ser uma escolha artística consciente. A literatura que se baseia em referências obscuras ou em experimentações formais extremas cria uma barreira que exclui leitores de menor instrução ou que não tiveram acesso a uma educação privilegiada. A popularidade ou a clareza de um texto, nessa perspectiva, são vistos como falhas, e não como virtudes.

Essa é uma visão perigosa que diminui o valor de gêneros populares e de autores que se comunicam de forma mais direta. A história de Dom Quixote ou Odisseia é tão acessível que sobreviveu por séculos, sendo contada e recontada. A mesma lógica se aplica a obras como O Pequeno Príncipe, que com sua linguagem simples e forma de fábula, transmite profundidade e filosofia a leitores de todas as idades. A simplicidade, aqui, não é falta de forma, mas uma escolha de forma consciente e brilhante.

Onde a forma se encontra com o conteúdo

O grande equívoco da crítica de Bernardini é separar conteúdo e forma como se fossem entidades independentes. A verdade é que eles são inseparáveis. A forma é o vaso que contém o conteúdo, e a escolha do vaso diz muito sobre o que ele carrega.

  • Em Annie Ernaux, o estilo é seco, quase documental. Essa é a forma perfeita para narrar a vida de uma mulher da classe trabalhadora, cujas experiências e memórias seriam distorcidas por uma prosa cheia de floreios. A ausência de adjetivos e o ritmo direto são a forma que espelha a realidade crua de sua existência, provando que a simplicidade estilística é, na verdade, uma forma poderosa.
  • Já em Itamar Vieira Junior, a forma se manifesta na retomada da tradição oral. A prosa de Torto Arado não é somente um meio para contar a história de duas irmãs, mas sim uma forma de resgatar e celebrar uma linguagem e uma cultura marginalizadas. A narrativa não existiria com a mesma força se fosse contada em um estilo acadêmico ou distante.

A popularidade de autores como Elena Ferrante não se deve somente aos temas de suas obras, mas à sua capacidade de criar personagens tão complexos e diálogos tão vivos que milhões de leitores se sentem pessoalmente conectados às suas histórias. A forma de Ferrante é a habilidade de construir um universo narrativo envolvente e real.

Em vez de debater se esses autores são “literatura de verdade”, deveríamos celebrar como eles expandem a própria definição do termo. A forma de um livro pode ser a estrutura de um soneto, o fluxo de consciência de um romance modernista ou a prosa aparentemente simples que, no fundo, esconde uma profundidade imensa. A maestria literária não reside na dificuldade, mas na coerência e na eficácia da união entre forma e conteúdo. A literatura continua evoluindo, e a forma de hoje é a de autores que usam a acessibilidade para tocar o que há de mais complexo na experiência humana. E isso, sem dúvida, é literatura.

A Pergunta aos Leitores

No fim das contas, a literatura não é um clube exclusivo para os que dominam o estilo mais complexo. É uma forma de arte que se renova, encontrando novas vozes e formas de se expressar.

Agora, a pergunta é para você: a forma simples e o conteúdo acessível de um livro o tornam menos “literatura”? Qual é o livro que mais te marcou, e por quê? Deixe sua opinião nos comentários.

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