resenha o que e meu de jose henrique bortoluci
Resenhas

Resenha: O que é meu de José Henrique Bortoluci

José Henrique Bortoluci é sociólogo, escritor e professor brasileiro, com formação acadêmica marcada pela análise das estruturas sociais, da história recente do Brasil e das dinâmicas que atravessam a vida das pessoas comuns. Sua escrita costuma transitar entre o rigor da pesquisa acadêmica e a sensibilidade literária, sempre buscando traduzir em palavras as tensões entre vida pessoal e coletividade. Em O que é meu, ele mescla sua experiência íntima com o olhar analítico do pesquisador, criando um texto híbrido e intenso.

Sinopse

Neste ensaio biográfico de rara sensibilidade, que já teve os direitos vendidos para dez editoras estrangeiras, o sociólogo e professor José Henrique Bortoluci parte de entrevistas realizadas com seu pai, que durante cinquenta anos foi motorista de caminhão, para retraçar a história recente do país e da própria família. Por meio de uma prosa elegante e afetuosa — que combina depoimentos e anedotas do pai de e seus colegas com referências literárias e reflexões sobre o Brasil —, capítulos marcantes de nosso passado e de nosso presente se revelam pelos olhos de um cidadão comum, que vivenciou a ditadura militar e seus delírios megalomaníacos, como a construção da Rodovia Transamazônica e as marcas violentas da chegada do suposto “progresso” ao interior do país.

Bortoluci tem consciência de que a matéria-prima de sua escrita é composta por camadas, mediada pela memória, pela subjetividade de quem narra, pelo tempo. Mas essa impureza da matéria é justamente a chave para a concisão deste texto que, por nunca falar de uma coisa só, se desdobra em registros e territórios pouco explorados em nossa literatura. A devastação que assola o país também permite que o autor se aproxime de outro assunto doloroso: o câncer que acomete seu pai e o tratamento médico pelo qual ele passa durante a escrita do livro. As marcas no corpo do paciente, assim como as estradas que cortam o país, cicatrizes de um projeto desenvolvimentista que até hoje perdura em nosso imaginário político. A distância que ele percorre com o caminhão também é aquela que foi se abrindo entre seu destino e o do filho, hoje professor universitário.

Além de um feito literário e uma valiosa reflexão histórica e sociológica do país, este livro é também uma tentativa comovente e exitosa de unir novamente os dois caminhos.

Minha avaliação

O que é meu é um ensaio delicado sobre a memória de um pai que enfrenta o câncer, narrado a partir do olhar do filho. Nesse olhar, vemos não apenas a figura paterna, mas o reflexo de toda uma geração de trabalhadores que rodaram o Brasil sem descanso, carregando nos ombros a dignidade e o orgulho de sustentar suas famílias.

A narrativa começa intimista, centrada no cotidiano e na biografia do pai. Mas, à medida que a doença evolui, a história se expande: o câncer e seu tratamento tornam-se também metáforas para o próprio desgaste social, para as marcas invisíveis que uma vida de trabalho deixa em alguém.

No entanto, esse percurso narrativo não é linear. Em diversos momentos, o texto se abre para reflexões sociológicas mais densas, trazendo citações de pensadores e análises acadêmicas. Isso cria uma oscilação entre o relato pessoal, quase confessional, e uma abordagem mais ensaística e teórica. Essa mudança de tom pode ser instigante para alguns leitores, mas para mim acabou quebrando o ritmo da leitura. A cada mergulho íntimo, havia uma guinada inesperada para outro estilo, o que enfraquecia a intensidade do relato inicial.

Ainda assim, não se pode negar a força emocional do livro. A leitura emociona, transporta, faz refletir e até rir em certos trechos. E, inevitavelmente, em algum momento, uma lágrima pode escapar. É um livro sobre a finitude, mas também sobre a memória, a herança afetiva e o amor silencioso que marca a relação entre pai e filho.

Nota final

⭐ 4 de 5

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