leviata netflix uma fantastica aventura steampunk apressada demais para ser inesquecivel
Resenhas

Leviatã (Netflix): Uma Fantástica Aventura Steampunk Apressada Demais para Ser Inesquecível

A série Leviatã, disponível na Netflix, é uma adaptação visualmente deslumbrante da trilogia de Scott Westerfeld, conduzida pela talentosa Studio Orange (Beastars, Trigun Stampede). Ambientada em uma versão alternativa da Primeira Guerra Mundial, a narrativa mescla engenhocas steampunk com biotecnologia darwinista em um universo tão criativo quanto inusitado.

Um mundo de ideias originais

De um lado, os Clankers, também chamados de Mekanistas, austro-húngaros e alemães que usam máquinas e mechas. Do outro, os Darwinistas britânicos, com seus animais geneticamente modificados que funcionam como aeronaves, armas e até dispositivos de comunicação. A própria criatura que dá nome à série, o Leviatã, é uma espécie de baleia-dirigível que simboliza esse mundo fantástico.

A história acompanha dois protagonistas jovens e carismáticos. Aleksandar, o herdeiro do império austro-húngaro, precisa fugir após o assassinato dos pais. Deryn Sharp, uma garota britânica que se disfarça de menino para se alistar na Força Aérea, enfrenta seus próprios dilemas em uma jornada de descobertas e coragem. A química entre os dois é envolvente, e a narrativa trabalha bem as tensões e o afeto que surgem entre eles.

Estilo narrativo e visual à la Ghibli

Leviatã acerta ao optar por mostrar em vez de explicar. Emoções, conflitos internos e dinâmicas sociais são frequentemente transmitidos por olhares e gestos, num estilo que lembra os filmes do Studio Ghibli. Isso não é coincidência: Joe Hisaishi, compositor lendário das trilhas de Miyazaki, contribui com temas emocionantes, como o belíssimo “Paths Combine”, que evolui ao longo dos episódios e culmina em um momento de arrepiar.

A animação, feita em 3D, consegue recriar a atmosfera de clássicos desenhados à mão. Ainda que em alguns momentos a expressão facial fique limitada, a escolha técnica faz sentido diante da complexidade dos mechas, criaturas e ambientes diversos.

O grande problema: falta de tempo

Apesar de todos os acertos, Leviatã comete um erro difícil de ignorar: adaptar três livros inteiros em apenas 12 episódios. A decisão compromete o ritmo e, mais ainda, a profundidade emocional da obra.

Cenas que deveriam servir para construir laços, aprofundar conflitos ou desenvolver personagens são cortadas, ou aceleradas. Para quem leu os livros, é claro que partes importantes ficaram de fora. Para quem não leu, há uma constante sensação de que tudo está passando rápido demais — e está mesmo.

Alek e Sharp, por mais cativantes que sejam, mereciam mais tempo para crescer. As transições emocionais dos personagens acontecem sem o devido peso. Personagens secundários relevantes mal têm espaço para existir. E muitos momentos de clímax chegam antes que o espectador tenha tempo de se importar de verdade com o que está em jogo.

Representatividade bem tratada (mas ofuscada pela pressa)

Um dos méritos da série é o cuidado com a representatividade. Sharp, ao esconder sua identidade de gênero para realizar seu sonho, vive conflitos intensos, tratados com respeito e sem estereótipos. A série não reduz a personagem a uma “garota disfarçada de menino”. Ela é simplesmente Sharp — complexa, cheia de energia, contraditória e adorável.

Infelizmente, essa construção tão rara acaba ofuscada pela falta de espaço. A jornada de Sharp merecia mais tempo para brilhar, considerando especialmente o peso simbólico que carrega.

Conclusão

Leviatã é uma série ousada, bela e cheia de potencial. Tem uma estética marcante, ideias originais e personagens carismáticos. A trilha sonora é comovente, a ambientação é rica e o mundo é criativo o suficiente para alimentar muitas temporadas.

Mas ao condensar tanto conteúdo em tão pouco tempo, a série compromete o que poderia ser sua maior força: o desenvolvimento emocional dos personagens e a construção cuidadosa das relações.

É uma aventura que vale ser assistida, sim — especialmente por quem gosta de scifi, steampunk e narrativas fora do comum. Mas prepare-se para sair com a sensação de que te deram só uma parte da história. Porque foi exatamente isso que aconteceu.

Nota: 4/5

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