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Dicas de Leitura

O Corgi do Jovem Bruxo: magia, pertencimento e um lobisomem que definitivamente não queria ser um corgi

Há histórias que começam com uma guerra, uma profecia ou uma ameaça capaz de mudar o destino do mundo. O Corgi do Jovem Bruxo começou de uma maneira bem menos grandiosa: com a imagem de um jovem bruxo encontrando um corgi preto sobre um muro coberto de flores.

A partir daí nasceu uma fantasia romântica LGBTQIA+ sobre magia, perdas, afeto, pequenas escolhas e as estranhas maneiras pelas quais alguém pode acabar entrando na nossa vida. Também há uma cidade brasileira escondida entre montanhas, uma padaria que nem sempre se comporta como um estabelecimento respeitável e algumas coisas que, à primeira vista, parecem muito mais simples do que realmente são.

No centro da história está Alaric Ellowyn, um jovem bruxo que aprendeu a encontrar segurança na rotina. Depois de perder os pais e Gelert, seu antigo familiar, ele se acostumou a uma vida relativamente previsível: trabalhar na padaria da família, ajudar a irmã Selina e permanecer dentro dos limites conhecidos de Cadonce Nero.

Para Alaric, começar alguma coisa nova significa também admitir que um dia ela pode desaparecer. Por isso, há certo conforto em manter a vida pequena, conhecida e organizada o suficiente para que nenhuma surpresa consiga atravessar a porta sem ser percebida.

Naturalmente, é exatamente nesse momento que aparece um corgi.

O cachorro é preto, tem olhos dourados e uma quantidade bastante suspeita de personalidade. Ele também parece possuir opiniões fortes sobre onde deve dormir, o que considera aceitável comer e quais acessórios representam uma violação imperdoável de sua dignidade.

Seu nome é Henrik.

E é melhor não presumir que isso esclareça alguma coisa.

Uma história sobre pertencer

Apesar da magia, das criaturas sobrenaturais e de certas complicações que Alaric definitivamente não pediu, O Corgi do Jovem Bruxo é principalmente uma história sobre pertencimento.

Eu queria escrever sobre personagens que, por razões diferentes, precisam descobrir o que significa construir uma vida própria quando tantas coisas parecem já ter sido decididas por eles. Alaric carrega o peso das pessoas que perdeu. Henrik chega a Cadonce Nero com mais segredos do que gostaria de admitir. Selina, por sua vez, ocupa um lugar importante dentro da família Ellowyn, embora nem sempre seja simples entender o que os outros esperam dela — ou por quê.

Essas três trajetórias se encontram em perguntas que atravessam o livro inteiro. Quanto de nós pertence às pessoas que vieram antes? Em que momento tradição deixa de ser memória e começa a se transformar em obrigação? E, principalmente, o que faz alguém decidir permanecer quando teria todos os motivos para ir embora?

Foi daí que surgiu uma das ideias que mais gosto no livro: ficar também pode ser uma forma de coragem. Não porque alguém esteja preso, mas justamente porque existe a possibilidade de escolher outra coisa.

Cadonce Nero

Eu queria que a história acontecesse em uma cidade que tivesse personalidade própria, daquelas que parecem continuar existindo mesmo quando os protagonistas não estão olhando. Assim nasceu Cadonce Nero, uma pequena cidade mágica escondida entre montanhas brasileiras.

É um lugar construído por gerações de famílias, tradições e histórias que se misturaram ao longo do tempo. Durante o Festival do Véu, por exemplo, lanternas, flores, abóboras, sacis, curupiras, boitatás e antigos costumes dividem as mesmas ruas sem que ninguém considere isso particularmente estranho.

Naturalmente, Cadonce Nero também possui seus próprios segredos. Algumas ruas parecem mais compridas em determinados dias, certos lugares são encontrados com mais facilidade quando realmente querem ser encontrados e nem todas as histórias antigas são contadas da mesma maneira por todo mundo.

Grande parte do livro acontece na Infusão da Bruxa, a padaria da família Ellowyn. Lá há pão de queijo em forma de lua, bolo de fubá, café, brigadeiros de abóbora, receitas encantadas e ingredientes que ocasionalmente demonstram opiniões inconvenientes sobre o destino culinário reservado a eles.

A padaria é um dos lugares onde Alaric se sente mais seguro, e talvez por isso seja também um dos lugares onde tantas mudanças começam a alcançá-lo. Eu queria que ela transmitisse aquela sensação de espaço familiar para o qual alguém pode voltar depois de um dia particularmente ruim e encontrar comida quente, uma cadeira conhecida e pessoas que não exigem explicações imediatas.

Com o tempo, percebi que Cadonce Nero havia deixado de funcionar apenas como cenário. A cidade acabou se tornando quase mais um personagem do livro: acolhedora em alguns momentos, estranha em outros e sempre guardando alguma coisa atrás da próxima esquina.

Sobre um certo corgi

Existe um pequeno problema em falar sobre Henrik: quanto mais eu explico, menos interessante fica conhecê-lo pela primeira vez.

Por isso, talvez seja suficiente dizer que o corgi que aparece na vida de Alaric não está ali por acaso. Há uma razão para sua chegada a Cadonce Nero e também há razões para algumas de suas atitudes parecerem estranhamente pouco caninas.

Alaric, naturalmente, não sabe de nada disso.

Para ele, Henrik é apenas um animal mágico particularmente teimoso que parece ter desenvolvido uma preferência preocupante pela família Ellowyn. Isso significa que os primeiros momentos entre os dois são construídos em torno de convivência, cuidado e uma sucessão de situações em que Alaric tenta compreender por que aquele cachorro parece julgá-lo com tanta intensidade.

Há coisas sobre Henrik que o leitor descobrirá junto com Alaric, e prefiro mantê-las assim. Parte da graça da história está justamente em observar pequenas estranhezas se acumularem até que aquilo que parecia óbvio deixe de ser tão óbvio.

Só posso garantir que sua dignidade será testada.

Repetidamente.

E Selina?

Selina é uma personagem sobre a qual também é difícil falar sem entrar em territórios que prefiro deixar para o livro.

Ela é irmã de Alaric, faz parte da história da família Ellowyn e possui uma relação com a magia muito diferente da dele. Também é alguém que sabe mais sobre algumas coisas do que costuma demonstrar e menos sobre outras do que gostaria de admitir.

Sua presença se torna cada vez mais importante conforme os acontecimentos avançam, principalmente porque certas perguntas sobre o passado dos Ellowyn começam a aparecer. Algumas dizem respeito à família. Outras dizem respeito a Cadonce Nero. E existem aquelas que talvez nunca devessem ter permanecido sem resposta por tanto tempo.

Mais do que explicar exatamente qual é o papel de Selina na trama, prefiro dizer que sua história envolve escolha, autonomia e a diferença entre receber alguma coisa como herança e permitir que essa herança decida quem você deve ser.

Um romance que começa de maneira bastante incomum

Também existe, evidentemente, um romance.

Alaric e Henrik não começam a história da maneira mais convencional possível, e eu quis tratar isso com bastante cuidado. Durante a primeira parte do livro, a relação entre eles é construída por meio da convivência, da confiança e do cuidado, sem qualquer elemento romântico.

O romance pertence a uma etapa completamente diferente da história, depois que determinadas verdades deixam de ser segredo e os dois podem se enxergar de outra maneira.

A partir daí, temos um slow burn cheio de hesitação, proximidade crescente, conversas que começam em um assunto e terminam em outro, silêncios que significam mais do que deveriam e emoções que nem sempre permanecem tão escondidas quanto Henrik gostaria.

Há também o pequeno inconveniente de certas características lupinas serem muito pouco comprometidas com a discrição. Algumas emoções são particularmente difíceis de negar quando suas próprias orelhas ou sua cauda resolvem participar da conversa.

Cozy fantasy, mas não sem conflito

Uma das coisas que mais me interessava enquanto escrevia era encontrar um equilíbrio entre acolhimento e tensão.

O Corgi do Jovem Bruxo possui perigos, segredos antigos, relações complicadas e personagens que começam a perceber que determinadas tradições talvez tenham sobrevivido por motivos muito diferentes daqueles que aprenderam a acreditar.

Ao mesmo tempo, eu nunca quis que a história perdesse sua sensação de aconchego. Há café quente, comida compartilhada, flores depois da chuva, conversas na cozinha, pessoas aprendendo a pedir ajuda e momentos em que alguém simplesmente decide permanecer ao lado de outra pessoa.

Também há famílias que não dependem apenas de sangue e vínculos que são construídos por pequenos gestos repetidos até que um dia os personagens percebam que aquilo já se tornou alguma coisa importante.

Para mim, cozy fantasy não precisa significar uma história em que nada dói. Pode significar uma história em que, mesmo quando as coisas doem, existe a possibilidade de encontrar cuidado, abrigo e companhia.

Para quem é O Corgi do Jovem Bruxo?

Se você gosta de cozy fantasy, romance LGBTQIA+, slow burn, bruxos, lobisomens, found family, hurt/comfort, pequenas cidades mágicas e histórias com final feliz, talvez encontre alguma coisa para gostar em Cadonce Nero.

Também ajuda ter certa tolerância para padarias temperamentais, ruas suspeitas, magia antiga e criaturas que insistem em guardar segredos muito além do momento em que seria razoável simplesmente explicar o que está acontecendo.

E, naturalmente, existe Henrik: um corgi que gostaria de deixar registrado que seu tamanho não diminui sua autoridade, que sua dignidade continua absolutamente intacta e que qualquer tentativa de colocar nele um lenço verde será interpretada como uma provocação.

Uma última coisa

No fundo, O Corgi do Jovem Bruxo é uma história sobre portas.

Existem aquelas que fechamos porque temos medo do que pode entrar. Há portas que outras pessoas tentam atravessar sem permissão e aquelas que permanecem abertas por tanto tempo que esquecemos que também podemos fechá-las.

Mas existem ainda as portas que alguém abre para nós sem exigir que atravessemos imediatamente. As que permanecem ali enquanto decidimos se estamos preparados. E aquelas diante das quais finalmente percebemos que a escolha sempre deveria ter sido nossa.

Espero que, quando os leitores conhecerem Alaric, Henrik, Selina e Cadonce Nero, encontrem nessa história justamente isso: não todas as respostas logo de início, mas um lugar estranho, acolhedor e mágico o bastante para despertar a vontade de descobrir o que existe depois da próxima porta.

E, talvez, um lugar para o qual tenham vontade de voltar.

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