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O que é Blackout Poetry? O guia definitivo sobre versos apagados

A Blackout Poetry — ou, em português, poesia apagada — é uma forma de expressão poética que transforma textos existentes em novos significados. O autor parte de uma página já escrita, como um jornal, revista, livro ou documento, e apaga ou cobre a maior parte das palavras, deixando visíveis apenas as que formam um novo poema. O resultado é uma obra que combina texto e arte visual, brincando com o que é revelado e o que é ocultado.

Origem: do humor à arte

Os primeiros registros dessa prática remontam ao século XVIII, com Caleb Whitefoord, contemporâneo de Benjamin Franklin, que publicava colunas satíricas compostas a partir de trechos alterados de notícias. Embora fossem vistas somente como brincadeiras intelectuais, essas experiências abriram caminho para o que hoje chamamos de found poetry — poesia encontrada — da qual a Blackout Poetry é uma vertente.

No início do século XX, os dadaístas, como Tristan Tzara, usaram técnicas de colagem e corte de palavras como forma de subversão artística. O dadaísmo, em reação à Primeira Guerra Mundial, questionava a racionalidade e o controle da linguagem. Já nas décadas de 1950 e 1960, os Beat poets, como William S. Burroughs, levaram a técnica adiante com seus cut-ups — textos recortados e remontados que criavam novos sentidos a partir de fragmentos de prosa e poesia.

A evolução moderna

A forma ganhou força novamente na segunda metade do século XX com artistas como Ronald Johnson, autor de RADI OS (1977), uma recriação de Paradise Lost (Paraíso Perdido, de John Milton) feita por meio de apagamentos, e Tom Phillips, com A Humument (1966–2016).

Em A Humument, Phillips reimaginou página por página o romance vitoriano A Human Document de William Hurrell Mallock, transformando o texto original em um híbrido entre pintura, colagem e poesia. O artista trabalhou na obra por mais de cinquenta anos, produzindo diversas edições, cada uma com novas camadas visuais e poéticas.

Esses trabalhos consolidaram a Blackout Poetry como uma forma legítima de arte contemporânea, unindo literatura, pintura e crítica social.

Um comentário sobre censura

O aspecto visual da poesia blackout — com palavras ocultas por blocos escuros — evoca imediatamente documentos censurados. Essa semelhança transformou a técnica em um instrumento poético de crítica política. Poetas usam textos oficiais, leis ou comunicados governamentais para denunciar silêncios impostos e revelar verdades escondidas.

Um exemplo recente é o poema “Media Blackout” (Apagão da Mídia), de MA Dubbs, criado a partir de um comunicado da Embaixada dos Estados Unidos na Birmânia. O texto original, burocrático, é reconfigurado como denúncia da omissão diante da violência política no país. O apagamento dá voz ao que foi silenciado, transformando o ato de “esconder” em gesto de revelação.

Blackout Poetry como introspecção

Nem toda poesia blackout tem caráter político. Alguns artistas exploram a técnica como forma de expressão íntima e terapêutica. Ao selecionar palavras de um texto alheio, o autor encontra frases que refletem emoções próprias. O processo de apagar o que não serve é, muitas vezes, também simbólico: um exercício de autodescoberta, um ato de curar memórias e organizar pensamentos.

A poetisa Niina Pollari, em Form N-400 Erasures, utiliza o formulário de naturalização dos Estados Unidos como base para falar sobre imigração e pertencimento. O apagamento transforma o documento burocrático em confissão poética, expondo a vulnerabilidade de quem busca aceitação em outro país.

Blackout Poetry como arte visual

O formato não se limita à tinta preta. Muitos artistas exploram cores, formas e sobreposições para criar composições plásticas. O poema “Stars”, de Jewel Guerra, finalista do New York Times Blackout Poetry Contest em 2019, é um exemplo disso. Usando uma página do jornal, a jovem de 16 anos desenhou constelações conectando palavras que falam sobre o cosmos, criando uma poesia que se lê e se contempla.

Essas obras mostram que o apagamento pode ser estético e simbólico. O ato de escolher o que permanece visível é uma curadoria poética, uma pintura com palavras.

Blackout Poetry no Brasil

No Brasil, a técnica começou a circular com força nas redes sociais, especialmente no Instagram, entre 2016 e 2020. Artistas visuais e poetas como Camila Nicácio, Lucas de Lucca, Mafê Albuquerque e Rafaella Bauman popularizaram o formato, misturando poesia blackout com colagem e fotografia. Oficinas de poesia apagada vêm sendo realizadas em centros culturais e escolas públicas, onde os alunos criam poemas a partir de jornais e revistas.

Essa democratização faz parte do movimento de arte acessível: qualquer pessoa pode criar sua própria obra apenas com papel e uma caneta marcadora. O resultado é sempre singular, revelando o olhar e a sensibilidade de quem cria.

Como criar sua própria poesia blackout

  1. Escolha o texto-base
    Pegue uma página que desperte interesse. Pode ser um artigo de jornal, uma notícia antiga, uma propaganda ou até um trecho de livro esquecido.
  2. Leia e sublinhe palavras-chave
    Passe os olhos pelo texto procurando frases, ritmos e palavras que evoquem emoções.
  3. Forme o poema
    Una as palavras sublinhadas em uma sequência que faça sentido para você.
  4. Apague o restante
    Cubra o texto que sobrou com tinta preta, aquarela, lápis de cor ou colagem.
  5. Adicione arte visual, se quiser
    Desenhe, pinte ou use recortes. O visual é parte da mensagem.

Dicas para aprimorar

  • Escolha textos que tenham carga simbólica — documentos, notícias ou textos literários ricos em linguagem.
  • Lembre-se de que o silêncio também comunica: o espaço apagado é tão importante quanto as palavras visíveis.
  • Experimente outras línguas, fontes e estilos tipográficos.
  • Use o apagamento como forma de reflexão: o que você gostaria de esconder ou revelar?

Conclusão

A Blackout Poetry é mais do que uma técnica, é uma forma de diálogo entre linguagens. Reescrever a partir do que já existe é um gesto político, criativo e profundamente humano. Em tempos de excesso de informação, o apagamento se torna um ato de resistência — uma maneira de escutar o silêncio e transformá-lo em poesia.

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