
Um Século de Fantasia: como o gênero mudou desde a década de 1920
A palavra inglesa fantasy (fantasia) surgiu do francês antigo phantasie, que significa “visão, imaginação”. Mas você não estaria totalmente errado se pensasse que ela veio da palavra “fantástico”. Quando pensamos em tudo o que existe de extraordinário no mundo real e em nossa imaginação, fica evidente o motivo de haver tantos subgêneros diferentes na fantasia, cada um com leitores apaixonados por suas particularidades.
Ao longo do último século, o gênero passou por mudanças significativas. Nesta análise, vamos percorrer algumas das transformações mais marcantes, com foco no cenário anglófono, embora a fantasia seja um fenômeno mundial que remonta a tradições como a mitologia indiana de 1500 a.C. Até a década de 1940, o termo fantasia ainda não era usado universalmente. A expressão mais comum na época era “conto de fadas”.
Os dois gigantes da fantasia
É impossível falar sobre a consolidação da fantasia sem mencionar C. S. Lewis e J. R. R. Tolkien. Eles se conheceram em 1926 na Universidade de Oxford, onde lecionavam, e logo passaram a compartilhar textos e ideias em um grupo literário chamado Inklings. Esse círculo de escritores acabou influenciando decisivamente o rumo do gênero.
Lewis se destacou por sua produção rápida e popular. Com as Crônicas de Nárnia, publicadas em apenas sete anos, conquistou leitores e ajudou a associar a fantasia ao público infantil. Tolkien, por sua vez, revolucionou o gênero ao publicar O Senhor dos Anéis na década de 1950, obra que se tornou um marco cultural.
A contribuição de Tolkien foi muito além de uma boa história. Ele estabeleceu elementos centrais da alta fantasia, como a jornada do herói, a luta entre bem e mal, a figura do mentor sábio, o grupo de protagonistas e o antagonista sombrio. Além disso, criou idiomas próprios e uma mitologia interna que conferiam à Terra-média a sensação de ser um universo anterior e independente da nossa realidade.
A expansão em subgêneros
Após Tolkien, a fantasia se dividiu em vários caminhos. Alguns autores seguiram sua linha diretamente, como Terry Brooks em A Espada de Shannara, que deu continuidade à fantasia épica. Outros optaram por romper com esse modelo. George R. R. Martin, em As Crônicas de Gelo e Fogo, substituiu elfos e lutas maniqueístas por personagens complexos, intrigas políticas e violência realista.
Essa abordagem inspirou obras de Joe Abercrombie, com The First Law, e de Scott Lynch, com Gentleman Bastards. Eles ajudaram a consolidar o subgênero conhecido como “grimdark”, marcado por cenários sombrios e moralidade ambígua.
Enquanto isso, Ursula K. Le Guin, com a saga Terramar, mostrou que era possível criar universos tão ricos quanto os de Tolkien, mas com personagens mais diversos e próximos do leitor. Neil Gaiman explorou a fantasia urbana em Neverwhere, questionando se haveria uma Londres subterrânea, e Anne Rice abriu caminho para o sucesso da fantasia paranormal com Entrevista com o Vampiro.
A partir dos anos 1970, novos ramos também ganharam força, como a fantasia histórica e a fantasia steampunk, que dialoga com a ficção científica.
O impacto da fantasia jovem e do cinema
Apesar da variedade, a fantasia ainda era vista como nicho até a virada do milênio. Foi a literatura jovem que expandiu seu alcance global. Harry Potter despertou em milhões de leitores o interesse pelo gênero e, com o avanço do cinema digital, a fantasia encontrou espaço definitivo nas telas.
A adaptação cinematográfica de O Senhor dos Anéis por Peter Jackson, em 2002, trouxe a Terra-média a um público ainda maior. Poucos anos depois, Game of Thrones consolidou-se como fenômeno televisivo mundial.
O futuro da fantasia
O gênero hoje caminha em direção a maior diversidade e hibridização. Cada vez mais, escritores exploram culturas não europeias, criando mundos inspirados na Ásia, na África e nas Américas indígenas. Ao mesmo tempo, a fantasia se mistura com outros gêneros, como romance, mistério e thriller, o que amplia ainda mais suas possibilidades narrativas.
O futuro também inclui a influência de novas tradições culturais, como o gênero LitRPG, originado na Rússia, que combina literatura e mecânicas de videogame.
A fantasia sempre funcionou como uma forma de escapar da realidade, mas também de compreendê-la. Lloyd Alexander, autor de As Crônicas de Prydain, resumiu isso de maneira precisa ao afirmar que a fantasia é uma forma de entender o mundo. O próximo século do gênero será moldado pela imaginação de autores que ousarem reinventar o que já foi feito e expandir ainda mais as fronteiras da ficção.


