
Como Usar a Psicologia Para Escrever Histórias Incríveis
Psicologia e escrita compartilham o mesmo DNA: a obsessão em decifrar como pensamos, sentimos e agimos. A boa notícia é que você não precisa de um diploma para criar personagens profundos; precisa apenas de um olhar atento e curiosidade genuína sobre a natureza humana.
Se você escreve ficção, você já é um psicólogo de mundos imaginários, talvez só ainda não saiba disso.
Psicologia e escrita
Talvez você seja do tipo que escreve sem planejar. Mergulha numa ideia com um personagem que começa a ganhar forma na sua mente. Três ou quatro capítulos depois, porém, a história começa a desmoronar e você não sabe exatamente por quê.
- Talvez o comportamento do personagem não combine com as exigências da trama.
- Talvez suas motivações não façam sentido.
- Ou talvez você não consiga enxergar o mundo pelos olhos dele.
Seja qual for o motivo, sua história entra em crise.
Ou talvez você seja um planejador. Você estrutura cenas, define objetivos, constrói o arco narrativo do começo ao fim. Mas, em algum ponto, tudo parece perder o encaixe. Algo não funciona.
Pode ser que o personagem criado não seja o melhor veículo para a ideia. Ou que partes da história não se apoiem em comportamentos humanos realistas. Elas simplesmente não soam verdadeiras.
Em muitos casos, compreender melhor a psicologia do comportamento humano é o que falta para destravar a narrativa e conduzir a história a um final mais forte e coerente.
O “médico” está presente
Você lembra das tirinhas do Charlie Brown? A Lucy montava uma barraca de “Ajuda Psiquiátrica” por cinco centavos. Depois ampliou o negócio: opiniões, pensamentos do dia e conselhos, cada um com seu preço.
Assim como a Lucy, eu não sou psicólogo, nem interpreto um na TV. Sou apenas alguém que acha o assunto fascinante e vê valor nele como escritor.
Escrever é psicologia
A psicologia estuda por que os seres humanos pensam, sentem e se comportam como se comportam. Isso é praticamente a definição do que fazemos como escritores.
Personagens realistas têm passado, família, crenças, falhas, forças e conflitos internos. Eles pensam sobre si mesmos, sobre os outros e sobre o mundo. Eles interpretam a realidade o tempo todo.
Darian Smith resume isso muito bem em The Psychology Workbook for Writers:
“Os escritores são observadores atentos da natureza humana. Eles mostram comportamentos, processos de pensamento e a forma como as pessoas dão significado às experiências, transformando tudo isso em entretenimento envolvente.”
Você não precisa de diploma
Você não precisa de um doutorado para aplicar psicologia à sua escrita. Quem se sente atraído por contar histórias já possui, em algum nível, uma intuição sobre o comportamento humano.
Mas, como qualquer habilidade, isso melhora com prática consciente.
Aqui estão três áreas fundamentais para unir psicologia e escrita.
1. Observação
A maioria dos escritores é fascinada por pessoas. Observamos o que dizem, o que fazem e, principalmente, as contradições entre as duas coisas.
Mesmo que seus personagens sejam “maiores que a vida”, eles precisam ter algo do ser humano comum, alguém com quem o leitor consiga se identificar.
Histórias fazem parte do nosso DNA. Quando lemos por prazer, também estamos aprendendo como as pessoas funcionam, como se relacionam e como enfrentam problemas.
Por isso, crie o hábito de observar:
- O que as pessoas dizem?
- Como se comportam em grupo?
- Como lidam com conflitos pequenos do dia a dia?
- O que escondem no tom de voz ou no silêncio?
Anotar essas observações pode ser ouro na hora de construir personagens mais reais.
Observar pessoas é a pesquisa do escritor.
2. Linguagem corporal
A comunicação não verbal diz muito, muitas vezes mais do que as palavras. Gestos, posturas, olhares e movimentos revelam emoções que o personagem talvez nem perceba conscientemente.
O ex-agente do FBI Joe Navarro, autor de O que todo corpo fala, explica:
“A linguagem corporal costuma ser mais honesta do que as declarações verbais, que são elaboradas conscientemente para atingir objetivos.”
Na escrita, pense em congruência e contraste.
Você pode usar gestos para reforçar o que o personagem diz, mas pode ir além: usar o corpo para contradizê-lo.
Quando alguém diz “está tudo bem” enquanto aperta os punhos ou evita olhar nos olhos, o leitor entende que não está tudo bem.
Lisa Cron, em Wired for Story, alerta:
“O erro mais comum é usar a linguagem corporal para dizer o que o leitor já sabe. Ela funciona melhor quando revela algo que não sabemos.”
3. Visite sua estante
Pegue um pano e olhe sua estante. Muitos de nós têm livros como:
- Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas
- As Cinco Linguagens do Amor
- Os Homens São de Marte, as Mulheres São de Vênus
Esses livros estão cheios de ideias que podem ser aplicadas à criação de personagens críveis.
Se não tiver, é fácil encontrar amostras online.
Também vale procurar obras voltadas diretamente para escritores, como The Writer’s Guide to Psychology, de Carolyn Kaufman.
Outro exercício interessante é o que Dean Wesley Smith chama de “digitação”: copiar trechos de autores que você admira para sentir o ritmo, a construção e as escolhas narrativas.
O objetivo não é plagiar, mas treinar o instinto.
O mesmo vale para a psicologia: ao aprender e aplicar conceitos sobre comportamento humano, eles passam da mente racional para a intuitiva e começam a aparecer naturalmente na sua escrita.
Todos diferentes e ainda assim iguais
Somos um mosaico de singularidades sustentado pelas mesmas vigas: o medo, a esperança, o amor e a dor. Quando você molda um personagem com as ferramentas da psicologia, não está apenas descrevendo alguém, está estendendo um espelho. É nesse encontro entre a verdade do autor e a bagagem do leitor que o livro deixa de ser papel e passa a ser memória. Afinal, a psicologia na escrita serve para isto: garantir que a história não termine quando o livro se fecha.


