
Resenha: Cancún de Miguel Del Castillo
Miguel Del Castillo é escritor, arquiteto e tradutor. Nascido no Uruguai e radicado no Brasil, é autor de romances e contos que exploram a memória, as relações afetivas e as marcas deixadas pelo tempo. Sua prosa é reconhecida pela delicadeza no olhar e pela capacidade de transformar lembranças pessoais em narrativas literárias universais. Em Cancún, ele reafirma seu lugar entre os nomes mais interessantes da literatura contemporânea brasileira.
Sinopse

Entre a Barra da Tijuca e o balneário mexicano de Cancún, um comovente romance de formação, mergulho de rara sinceridade em temas como religião e paternidade.
Às portas da adolescência, Joel sente-se deslocado entre os amigos da escola e do prédio onde mora. O ano é 1998 e o mundo parece cada vez mais um lugar ameaçador. Ao mesmo tempo em que busca acolhimento num grupo de jovens de uma igreja evangélica, entra em colisão com o modo de vida do pai, que acaba de regressar ao Brasil após quatro misteriosos anos na cidade de Cancún.
Décadas depois, com a morte do pai, longe da religião e prestes a ter um filho, Joel decide voltar, sozinho, ao balneário mexicano. Ao tentar repetir os passos paternos, uma viagem simples se torna complexa, e o que se evidencia são os caminhos que levaram Joel a ser quem é. Com uma prosa clara e irretocável, Miguel Del Castillo faz o retrato de uma classe forjada em condomínios fechados e paraísos fiscais, em colégios onde a violência é a regra e no brilho plástico dos fast-foods. Um dos romances mais surpreendentes da nova geração de autores brasileiros.
Minha avaliação
Cancún me despertou aquela emoção rara que só a boa literatura provoca: a sensação de ser transportado por lembranças e lugares que, embora não sejam meus, soam familiares. É curioso como o livro nos faz refletir sobre aquilo que não percebemos na hora certa — pela falta de maturidade, de atenção ou de interesse — e que só muito depois compreendemos em sua real dimensão.
No centro da narrativa, estão as relações que moldam nossa trajetória: o vínculo entre pai e filho, as amizades que se fazem e se perdem, as escolhas que tomamos e suas consequências, além do peso daquilo que poderia ter sido. Essa tessitura entre memória, afeto e destino cria um romance que convida o leitor a revisitar a própria vida.
Sou um entusiasta dos romances de formação — talvez o gênero que mais me encanta e também aquele por onde comecei minha própria escrita, em Misantropia. Por isso, Cancún me tocou de maneira especial. É um livro que, ao mesmo tempo em que fala do outro, acaba nos devolvendo para dentro de nós mesmos. De verdade, adorei essa leitura.
Nota final
⭐ 5 de 5


