indicado ao prix do roman escritor explica seu processo criativo e da dicas para novos escritores
Entrevistas

Oséas Singh Jr., indicado ao Prix du Roman, fala sobre criação literária e aconselha novos escritores

Entrevista: Helena Bittencourt – Fotos: Thales Murilo

Entrevista exclusiva para o Escrita Selvagem com o escritor paulista Oséas Singh Jr., o primeiro brasileiro indicado ao prestigioso prêmio literário francês Prix du Roman de l’Année 2025. Aos 58 anos, seu romance de estreia, Le Refuge des Héros Fatigués, está entre os cinco finalistas selecionados pela Académie des Lecteurs, concorrendo ao lado de nomes consagrados da literatura francesa.

Singh Jr. reside na cidade de Salto, localizada a 98 quilômetros da capital paulista, onde um coreto local serviu de inspiração para o narrador de sua obra. Lançado simultaneamente no Brasil sob o título Estância dos Heróis Combalidos, este não é o primeiro livro do autor a ganhar reconhecimento internacional. Em 2021, ele publicou Banal Apocalypse, uma obra distópica lançada pela Amazon.

A que você atribui o sucesso do seu livro entre os leitores francófonos?

O. Singh Jr. – Creio que seja pela densidade tragicômica da transformação dos moradores de rua em super-heróis. A miséria transformada em espetáculo. Os personagens caricatos vão ganhando profundidade emocional ao longo da narrativa. Nesse sentido, o livro tem várias camadas de interpretação. Alguns leitores jovens se encantam com a parte lúdica, enquanto leitores mais experientes se deixam envolver pela crítica social e pelas metáforas que transcendem o enredo. Além disso, acredito que outro ponto de interesse seja o narrador inanimado, o Coreto da praça central, que observa tudo de forma irônica, impiedosa e leva o leitor a uma cumplicidade quase voyeurística na observação da desgraça alheia. Sua voz, marcada por um existencialismo amargo, traz uma lucidez cruel. Ele parece imóvel no tempo, mas sua onisciência local dá ao leitor a sensação de inevitabilidade, como se todos os eventos fossem destinados a acontecer. Penso que essa profundidade e distanciamento crítico, difíceis de alcançar com uma voz humana, estabeleça de imediato o pacto narrativo com o leitor.

Como tem sido a recepção do seu livro após a indicação ao prêmio francês?

O. Singh Jr. – Tem sido incrível, uma experiência que superou todas as minhas expectativas. Tenho recebido inúmeras mensagens de apoio de leitores de diferentes países e territórios de língua francesa. É uma sensação indescritível ver como a minha obra tem ressoado em culturas tão distintas. Grande parte do meu dia é dedicada a responder essas mensagens, o que me permitiu vivenciar de perto o carinho e o entusiasmo dos leitores.

Além disso, fui surpreendido pela força das comunidades de leitura no mundo francófono. Há dezenas de grupos virtuais de clubes de leitura com milhares de participantes discutindo literatura. Um dos maiores, o “Les dingues de lecture” (Malucos por leitura), reúne mais de 596 mil membros! É algo que nos desafia a repensar a dimensão da literatura no Brasil, pois essa mobilização cultural é algo ainda distante de nossa realidade.

Como foi o processo criativo desta obra?

O. Singh Jr. – Essa é uma questão complexa. Acho que o ponto de partida está naquele “outro eu dentro de mim” de que fala Jung. Os personagens começam a tomar forma na minha mente, quase de maneira autônoma, e vão sugerindo situações, diálogos e eventos. No início, o processo é prazeroso, quase lúdico, mas logo se torna caótico, como se houvesse um vozerio constante na minha cabeça. Chega um momento em que preciso despejar tudo no papel para encontrar alívio.
Depois vem a etapa mais dolorosa: cortar o texto. Costumo eliminar até dois terços do que escrevo, suprimindo tudo que está fora do enredo ou que carrega minha visão ideológica como autor. Para mim, o que importa na obra são os valores dos personagens, e não os meus. Esse distanciamento permite que as emoções do romance não sejam uniformes, mas dinâmicas. Muitos leitores notam essas mudanças no temperamento do narrador ao longo do livro. Cortar é um processo difícil, mas essencial. 

Por que você só lançou seu romance de estreia aos 58 anos?

O. Singh Jr. – Acredito que só agora meu texto alcançou a maturidade que eu esperava. Ao contrário do que muitos podem imaginar, escrever ficção exige um nível de habilidade muito maior do que a não-ficção. Esse processo me lembra uma noite marcante de 1993, quando lancei meu primeiro livro no Programa Jô Soares Onze e Meia. Para os mais jovens que não viveram essa época, o programa era a grande referência cultural da televisão brasileira. O livro em questão foi “Adeus Cinema” (Vida e obra de Anselmo Duarte, ator e diretor mais premiado do cinema brasileiro). A recepção foi incrível: a primeira edição esgotou antes mesmo do lançamento, e foram feitas cinco reimpressões. Na ocasião, a Folha de S. Paulo publicou páginas inteiras sobre o livro durante vários dias consecutivos. Uma das chamadas dizia que ele reescrevia a história do cinema brasileiro. Eu só tinha pouco mais de 20 anos e vi meu primeiro livro ser um grande sucesso.

Mas algo daquela noite no SBT me marcou profundamente. Durante os bastidores, o Jô Soares me deu um conselho que nunca esqueci: ele elogiou meu estilo singular e recomendou que eu não tivesse pressa para lançar novos livros. “É importante que o próximo seja ainda melhor”, ele disse. Desde então, levei essa recomendação muito a sério. Foi um aprendizado central para minha carreira e, talvez, a razão de eu só ter sentido o momento para a ficção agora.

E o que você diria para os jovens escritores que estão iniciando agora?

O. Singh Jr. – Eu começaria reforçando três pontos fundamentais, que muitos já conhecem, mas nem todos levam a sério:

  1. Não espere resultados imediatos. Se você deseja publicar um livro consistente, precisa ter paciência. Quem busca retorno rápido talvez devesse perseguir outra carreira. Escrever exige tempo, dedicação e persistência.
  2. Leia os clássicos e as principais obras contemporâneas. Evite a tentação de ler autores que não superam ou desafiam o seu nível. Leia textos que o forcem a crescer. Ler quem escreve pior que você não só limita seu desenvolvimento, como pode fazer você estacionar criativamente.
  3. Submeta sempre seus textos a leitores qualificados. Antes de publicar qualquer coisa, mostre seu trabalho para pessoas de notório saber literário. Alterar, cortar e revisar são partes essenciais do processo. Nunca tenha medo de reescrever quantas vezes for necessário.

Lembre-se de que só no Brasil são lançados mais de 50 mil novos títulos anualmente. Em países como os Estados Unidos ou França, esse número é ainda maior. Não acredite em “segredos para o sucesso”, porque eles simplesmente não existem na literatura. O marketing consegue aumentar as vendas de um livro ruim, mas nenhum volume de vendas pode garantir a sobrevivência de uma obra ao longo do tempo – e isso depende unicamente de sua qualidade.

Inédito na literatura brasileira:

Escritor do interior de SP é indicado ao Prix du Roman

A Académie des Lecteurs, dedicada a celebrar o melhor da literatura contemporânea entre leitores francófonos, publicou a lista dos cinco romances pré-selecionados para disputar o Prix du Roman de l’Année 2025. Entre os candidatos está o escritor brasileiro O. Singh Jr., autor do romance Le refuge des héros fatigués, originalmente lançado no Brasil com o título Estância dos Heróis Combalidos.


Sobre o prêmio

Realizado em duas etapas, o Prix du Roman destaca romances inéditos publicados ao longo do ano em língua francesa. Na primeira fase, a seleção é conduzida por dezenas de clubes de leitura localizados em países e territórios francófonos, que avaliam obras com base nos critérios de qualidade literária, originalidade e impacto emocional ou intelectual.

Na segunda etapa, é o público quem decide. Os leitores poderão votar em sua obra favorita a partir de 30 de outubro, utilizando um sistema rigoroso disponível no site oficial (prixduroman2025.com), onde o voto deve ser identificado e autenticado por e-mail.

Além da votação popular, o prêmio se diferencia ao convidar os leitores a justificarem suas escolhas e enviarem perguntas diretamente aos autores. A votação será encerrada em 15 de janeiro de 2026, com o vencedor sendo anunciado no dia 20 de janeiro de 2026, data em que uma entrevista exclusiva será publicada.


Os romances pré-selecionados:

  1. Le mensonge suffit – Christopher Bouix
  2. Le refuge des héros fatigués – O. Singh Jr.
  3. Le rêve du pêcheur – Hemley Boum
  4. Le vent souffle sur little Balmoral – Sophie Jomain
  5. Tant mieux – Amélie Nothomb

A obra brasileira

Publicado digitalmente pela editora FoxTablet, o romance Le refuge des héros fatigués é uma experiência de leitura marcante, que se destaca tanto pela originalidade do narrador — o Coreto da praça central — quanto pela força motriz da narrativa, centrada na ideia de transformar moradores de rua em super-heróis.

A história tragicômica se desenrola na fictícia Amada dos Anjos, uma estância turística devastada por uma endemia alcoólica. Em uma tentativa desesperada de revitalizar o turismo, as autoridades decidem transformar os moradores de rua em super-heróis fantasiados. No entanto, quando esses “heróis combalidos” resolvem tomar o controle de seus próprios destinos, a trama se transforma em uma sátira que explora as profundezas da condição humana.


Sobre o autor

o.singh jr

Jornalista com mais de 40 anos de experiência, Oséas Singh Jr. vive na cidade de Salto, a 98 quilômetros da capital paulista. Pós-graduado em História da Arte e da Cultura pelo Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da UNICAMP, o escritor marcou presença na literatura com sua obra de estreia, Adeus Cinema – Vida e Obra de Anselmo Duarte (1993), reconhecida por reescrever a história do cinema brasileiro.

Em 2021, Singh Jr. alcançou o cenário internacional com o lançamento de Banal Apocalypse, obra distópica publicada em inglês que conquistou destaque no segmento de ficção científica da Amazon Kindle. Agora, com sua indicação ao Prix du Roman de l’Année, dá um salto significativo para ampliar o alcance de sua obra.


Onde adquirir o livro:

Estante Virtual: https://www.estantevirtual.com.br/

Amazon: Versão impressa Estância dos Heróis Combalidos & Ebook Estância dos Heróis Combalidos

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